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CPAJuntos_Para_Sempreby_digita

By Oscar Stone,2014-09-14 05:02
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CPAJuntos_Para_Sempreby_digita

Traduzido por Fabio Fernandez

    e publicado pela editora Ática.

Dean me convidou

    Para sair no Dia dos

    Namorados...

    e roubou meu

    coração. Mas aí eu

    descobri que ele é

    de Gêmeos

    - a pior combinação

    amorosa possível para

    mim (sou de Escorpião).

    Com o zodíaco

    Todo para escolher,

    Por que fui logo me

    apaixonar por

    alguém do signo

    mais incompatível

    com o meu?

RESUMO

Um amor condenado pelas estrelas...

- E então, Dean, qual é o seu signo? perguntei.

    Eu tinha certeza de que ele era de Touro, a combinação astrológica perfeita para mim.

    - Você está mesmo muito envolvida com esse negócio de astrologia, não é? Dean

    retrucou, seus belos olhos cinzentos olhando no fundo dos meus. Confirmei com um gesto na cabeça.

    - Mas você está se esquivando da minha pergunta. Simplesmente me diga qual é o seu signo.

    - Tudo bem, tudo bem. Se é tão importante para você... Sou de Gêmeos. Eu não podia acreditar naquilo. Dean Smith, o amor da minha vida, era um... um geminiano! O pior signo possível para uma garota de Escorpião como eu! Pouco tempo antes um traiçoeiro geminiano de duas caras tinha me magoado muito. Desde então, havia prometido para mim mesma que nunca mais deixaria isso acontecer. Portanto, agora só me restava uma coisa a fazer: eu precisava romper com Dean...

1

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro)

    Pare de viver no passado e olhe para o amanhã. Sua recompensa poderá ser um novo amor. Mas velhos hábitos são difíceis de mudar, especialmente os que têm a ver com o coração. Alguém de Touro aparecerá na sua vida para curar antigas mágoas.

    - Não sei não - murmurei enquanto olhava para meu reflexo no grande espelho da cabine. - Acho que este vestido está meio exagerado...

    Girei o corpo para que minha melhor amiga, Jayne Engerman, pudesse me ver por inteiro. - O que você acha?

    - O que eu acho, Natalie Taylor, é que você é muito cheia de pudores - Jayne exclamou. - O que há de tão exagerado em usar um vestido vermelho no baile do Dia dos Namorados? Jayne e eu estávamos num provador da Kleinfeld's, uma das lojas de departamentos mais conhecidas de Seattle. E estávamos começando a nos sentir como se estivéssemos encarceradas naquele cubículo espelhado fazia vários dias.

    O bom humor de Jayne se dissipava rapidamente, e eu não podia culpá-la por aquele começo de rabugice. Ela estava sentada no chão fazia quase uma hora, com os joelhos dobrados contra o peito para me dar todo o espaço possível. O tamanho dos provadores das lojas de roupas é um dos grandes crimes do universo. Na lista dos piores, fica bem perto das salas de espetáculos e dos estádios/ que nunca têm boxes suficientes no banheiro feminino. Se eu fosse projetar um provador, sem dúvida incluiria no desenho uma cadeira para o acompanhante. Afinal, quem vai fazer compras ―sozinho‖? Seria um

    saco, não é mesmo?

    - Não estou falando da cor! - rebati, voltando a olhar para o espelho. - É que parece que acabei de ser pintada com um spray de festa líquida.

    Eu não podia negar que o vestido realçava voluptuosamente a minha silhueta. Minha cintura parecia menor, e como a barra ficava pouco abaixo da bunda, minhas pernas pareciam mais compridas. Meus cabelos (que, para mim, têm cor de lama, mas que os outros dizem ser castanho) e meus olhos castanho escuros se destacavam contra o vermelho berrante da lycra. Minha pele até parecia levemente bronzeada, o que era um milagre, considerando-se que moro em Seattle, também conhecida como a Capital Ocidental da Chuva. Mesmo assim, na minha opinião, com aquela roupa eu parecia mais uma aspirante a apresentadora da MTV do que uma garota vestida para um baile de colégio.

    Jayne analisou o vestido por um instante.

    - A lycra quase nunca é elegante - proclamou. - Ao contrário da seda, não deixa nada para a imaginação.

    Concordei com Jayne, mas já estava tão desesperada para encontrar o traje perfeito para o baile, que chegara a acalentar a esperança de que minha amiga me convencesse de que aquela era a roupa certa para mim.

    _ Por que você simplesmente não diz de uma vez que estou parecendo a Ordinária do Ano, e pronto? - cutuquei.

Jayne encolheu os ombros.

    _ Você está parecendo a Tanya Wright, o que é ainda pior

    do que a Ordinária do Ano.

    Agora eu tinha certeza de que Jayne realmente estava de mau humor. Ela sabia muito bem que a simples menção do nome de Tanya era suficiente para tirar meu apetite por uma semana. Mas decidi ignorar o comentário e manter meus pensamentos concentrados onde deviam estar: em Dean Smith.

    Para mim, o fato de Dean ter me convidado para sair era um verdadeiro milagre - especialmente considerando tudo o que já tinha acontecido entre nós dois. Ou, para ser mais precisa, o que não tinha acontecido.

    - Bom, espero não ter estragado esta coisa - disse, agachando-me para puxar o vestido para cima.

    - E tomara que você consiga se livrar dele sem estragá-lo Jayne emendou. Puxei o vestido com força, tentando tirá-lo por cima. Mas me vi aprisionada numa intrincada armadilha de lycra.

    - Jayne, você tem de me ajudar! - implorei. - Acho que este troço tem vida própria! Não é à toa que Jayne é minha melhor amiga. Mesmo quando está de baixo-astral ou mal-humorada, posso contar com ela. Provavelmente porque é de Peixes. Os piscianos são muito leais e sensíveis. O lema deles é ―Eu acredito‖.

    Quanto a mim, sou de Escorpião. O nosso lema é ―Eu desejo‖. Somos governados pelo

    coração, passionais e de sangue quente. E naquele momento esta escorpiana aqui estava começando a achar que ficaria para sempre com o maldito vestido colado ao corpo. Vi todo um futuro em lycra vermelha berrante desfilar diante de meus olhos. Seria destaque nas paradas da Festa do Morango e da Festa do Tomate. E no Natal calçaria botas pretas e arranjaria trabalho nos shoppings como um dos duendes ajudantes do Papai Noel.

    - Imagino que você não tenha aí um abridor de latas, não é, Jayne? - perguntei. - Ou uma tesoura bem afiada ...

    Ela fez que não com a cabeça.

    - Fique calma, Natalie. Vou tentar uma coisa. Jayne agarrou com firmeza a barra do vestido.

    - Levante bem os braços - avisou. - Quando eu contar até

    três, vou puxar esta coisa por cima da sua cabeça de uma vez só. - Vamos torcer para funcionar - murmurei.

    - Um ... dois ... três!

    Levantei os braços bem acima da cabeça e, então, me inclinei para a frente, enquanto Jayne puxava com força o material escorregadio. Em poucos segundos o vestido estava fora do meu corpo l' jazia num canto do provador como o cadáver vermelho-vivo de um monstro extraterrestre.

    - Acho que o matamos - Jayne concluiu. Livre da opressão, eu finalmente respirei fundo. - Foi um golpe de misericórdia, Jayne - eu disse. - O doutor Kevorkian, aquele da eutanásia, ficaria orgulhoso de nós.

    Ela riu.

    - Suicídio assistido na seção juvenil da Kleinfeld's - anunciou, na sua melhor imitação de âncora de telejornal. - Veja a reportagem completa às seis.

    - Em primeiro lugar, eu nunca deveria ter trazido esta coisa aqui para o provador. Não sei o que me deu.

    Peguei o vestido, que agora parecia inofensivo, e o recoloquei no cabide. - Desespero fashion - Jayne diagnosticou.

    - Pode ser. .. - murmurei, vestindo minha calça jeans.

    Jayne suspirou.

    - Desculpe meu mau humor, Natalie. É que ... - ela fez uma pausa e se olhou no espelho. - É que ... eu bem que gostaria de estar escolhendo um vestido para mim também. De repente, meu drama me pareceu insignificante. Eu sabia por experiência própria que não há nada mais deprimente do que não ter um par para um baile. E Jayne não tinha. Na minha opinião, Jayne é linda. Ela tem cabelos loiros sedosos e brilhantes e enormes olhos azuis. Mas se sente mais à vontade com um livro que com um garoto. Jayne tem o mau hábito de se vestir do jeito mais insípido e menos atraente possível, para passar despercebida. O que, convenhamos, não é a melhor forma de se conseguir um parceiro para coisa alguma, muito menos para um baile de Dia dos Namorados.

    - Bom - eu disse, tentando soar animadora -, pelo menos você não vai gastar uma nota preta num vestido maravilhoso, que acaba usando uma vez só e nunca mais. - E pelo andar da carruagem, você também não.

    Ela tinha razão. Se eu não encontrasse logo a roupa perfeita, teria de acabar me virando com o que já estava pendurado no meu guarda-roupa.

    Desolada, balancei a cabeça.

    - Não sei o que há de errado comigo. Nunca tenho dificuldade para comprar roupas - lamentei enquanto vestia minha camiseta regata roxa. - Simplesmente não entendo por que não consigo encontrar nada que me agrade.

    - Talvez você esteja nervosa - Jayne sugeriu.

    - Claro que estou nervosa! - respondi através da grossa lã do suéter preto de gola olímpica, no qual agora eu tentava me enfiar. - Já estraguei as coisas com Dean uma vez. Não posso deixar que aconteça de novo.

    - Você não estragou coisa nenhuma - Jayne ralhou. - O que aconteceu com Garth foi algo totalmente inesperado. Ninguém poderia culpá-la por aquilo.

    No começo do ano letivo, Dean era aluno novo na escola. E desde o instante em que eu pusera os olhos nele, na primeira aula de inglês do ano, algo batera entre nós dois. Eu tinha atravessado docemente o primeiro mês de aulas, flutuando numa deliciosa neblina de boas expectativas, sonhando acordada com aquela mecha de cabelos escuros que sempre caía pela testa perfeitamente modelada de Dean. E com aquele não-sei-o-que que sempre parecia estar escondido no fundo de seus olhos cinzentos. Desde o começo eu tinha certeza de que ele iria me convidar para sair. Só não sabia quando. Mas então aconteceu algo que me fez esquecer até mesmo que Dean existia. Tanya Wright tinha rompido com Garth Hunter. O namoro de Tanya e Garth sempre havia sido a fofoca predileta do segundo ano colegial. Só que, apesar de os dois viverem brigando, ninguém jamais esperava que um dia eles pudessem desmanchar o namoro. E quando eles realmente terminaram, eu com certeza não esperava que o impensável acontecesse. Mas aconteceu. Garth começou a dar em cima de mim.

    Eu era vidrada em Garth Hunter desde que me conhecia por gente. Provavelmente desde que aprendera a respirar. Bastou apenas uma palavra, um olhar de Garth, e Dean Smith tornou-se passado.

    Ainda que Dean tivesse três cabeças e três pares de maravilhosos olhos cinzentos, eu nunca teria notado. Naquele momento, Garth era o único cara que eu conseguia enxergar no universo.

    Infelizmente, também não consegui enxergar que nossa relação seria para ele pouco mais que uma brincadeira. Saímos algumas vezes e nos divertimos bastante ... ou pelo menos foi o que me pareceu. Mas, como logo descobri, Garth só estava me usando para reconquistar Tanya. Assim que ela voltou rastejando, ele me chutou.

    - Natalie ... - Jayne começou com uma voz serena e compreensiva, provavelmente porque percebera que, naquele momento, toda a minha sofrida história com Dean e Garth desfilava diante dos meus olhos como num filme. - Você só cometeu um erro - prosseguiu ela. - Todo mundo comete erros. E não parece que Dean esteja querendo jogar nada na sua cara. Então, por que ficar de baixo-astral por causa disso? - Porque sou de Escorpião - respondi abatida.

    - Ah, não, você prometeu! Nada de astrologia enquanto

    estivermos fazendo compras! - protestou Jayne.

    A astrologia é o único ponto em que minha amiga e eu não concordamos. Para mim, é a explicação perfeita para quase tudo. Para ela, não passa de um monte de bobagens. Mas, no fim, foi a astrologia que me ajudou a superar a história com Garth. Estudar os astros e o alinhamento dos planetas me fez entender a importância de olhar além da aparência de uma pessoa, para descobrir como ela é por dentro. Alguns usam suas noções de psicologia para tentar dissecar a personalidade das pessoas presentes em suas vidas. Eu prefiro me concentrar nas características do signo zodiacal de cada um. Se eu já estivesse envolvida com astrologia antes de ser idiota o bastante para sair com Garth, teria sabido de antemão que nosso relacionamento estava fadado ao desastre. Nossos signos são totalmente incompatíveis!

    Eu sou de Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro). Ele é de Gêmeos (21 de maio a 20 de junho).

    Os geminianos são encantadores, mas totalmente imprevisíveis. E no caso de Garth, imprevisível é sinônimo de não-confiável.

    Geralmente, eu argumentava com Jayne para tentar mudar sua visão limitada da astrologia. Mas agora eu simplesmente não estava com tempo. Se não encontrasse logo um vestido para o baile, teria de passar o resto da tarde com um bom dicionário nas mãos, tentando encontrar o nome de alguma doença muito rara de que ninguém jamais tivesse ouvido falar. Então tossiria até ficar

    Então tossiria até ficar rouca ligaria para Dean e lhe diria que teríamos de cancelar o nosso compromisso.

    Mas eu não queria fazer nada daquilo. Queria sair com Dean.

    dizia muito tempo que não queria tanto uma coisa.

    - Natalie, quanto a essa história de não ser capaz de encontrar um vestido - começou Jayne -, no que você estava pensando enquanto olhávamos as vitrines? A resposta era óbvia. - Em Dean, lógico!

    - Ah-Ah! - Jayne exclamou.

    Quase pude ver uma lâmpada se acendendo acima de sua cabeça.

    - E o que exatamente significa esse "ah-ah"? - perguntei.

    Às vezes eu tinha dificuldade para acompanhar a linha de raciocínio de Jayne. Minha amiga tende a ser um pouco abstrata.

    - É isso! - ela continuou. - Você andou se concentrando na coisa errada. Ficou tentando imaginar do que Dean gostaria.

    - Ué, claro que tentei imaginar do que Dean gostaria! Ele é

    o meu par, Jayne.

    - Mas nós já sabemos do que Dean gosta - ela insistiu.

    - Sabemos?

    - Natalie! - Jayne exclamou, naquele tom de voz que sempre

    usa quando eu me mostro incapaz de entender o que ela considera um problema matemático perfeitamente simples e óbvio (embora não exista nenhum problema matemático simples e óbvio, na minha opinião). - Ora bolas, Natalie, o Dean gosta de você!

    Pensei por um momento no que ela acabara de dizer. Talvez tivesse razão. Talvez o motivo de nenhuma roupa ter me parecido boa o bastante fosse eu estar me esforçando demais para agradar Dean.

    - Você quer dizer que, se eu me limitar a escolher aquilo de

    que eu gosto, Dean automaticamente vai gostar também? - É! - ela confirmou com um gesto de cabeça.

    - Mas isso parece simples demais!

    - Você sabe o que dizem sobre a distância mais curta entre

    dois pontos, não sabe? - Jayne perguntou, cruzando os braços. Mordi meu lábio. - Que sempre há alguma coisa no caminho para atrapalhar? - retruquei. - Na sua vida, provavelmente sim - ela respondeu rindo.

    - No mundo real, não.

    - Tá, tudo bem - cedi. - Já entendi. Vou tentar pensar menos

    e simplesmente procurar um vestido de que eu goste mais. - E, depois de uma pausa, completei: - Bom, então vamos lá. Nova tentativa. Estou querendo alguma coisa bem feminina e sexy.

    - Mas que não seja chamativa demais - acrescentou Jayne. Concordei com a cabeça. - E que tenha um toque de mistério ...

    De fato, aquela descrição parecia muito boa. Eu estava pronta ... para o que desse e viesse. Na noite de sexta-feira, fiquei sentada na minha cama, ouvindo a chuva pingar do beiral por fora da janela. Esperava com impaciência que o relógio digital no meu criado-mudo marcasse meia-noite.

    À meia-noite já seria catorze de fevereiro, dia de São Valentim, que é o nosso Dia dos Namorados. E dia do meu primeiro programa com Dean.

    Eu não pretendia ficar acordada até tão tarde. Estava até preocupada, imaginando se teria insônia. Afinal, não queria ir ao baile do dia seguinte parecendo um guaxinim. Mas o sono não queria chegar, e eu tinha desistido de forçar a barra.

    Além do mais, achei que, como ainda continuava acordada à meia-noite, podia me permitir ler meu horóscopo para o Dia dos Namorados.

    Antigamente eu lia meu horóscopo só por diversão. Mas isso antes de me envolver a sério com astrologia. Agora dou muita importância à leitura do horóscopo. É a primeira coisa que faço todos os dias.

    É uma experiência muito instrutiva. Me ajuda a ver como tudo no universo está conectado. A posição de uma estrela ou de um planeta em relação ao sistema solar passou a ter a capacidade de influir seriamente na minha vida.

    Claro que, naquela noite, havia uma razão especial para eu querer ler o meu horóscopo para o Dia dos Namorados. Queria ver se haveria nele algo relacionado ao 'meu programa com Dean na noite seguinte.

    Dei uma olhadela para o relógio digital em cima do criado-mudo. Sempre achei que dá azar ler o horóscopo antes da hora, mesmo que seja só um segundinho antes. Os números verdes do relógio marcavam 23:59. Mudaram em seguida para 00:00. Finalmente. A espera tinha terminado. Abri a gaveta do criado-mudo e peguei o horóscopo. Os escorpianos são os nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro. Mas, como todo estudante de astrologia sabe, essas datas não são uma coisa absolutamente rígida. Em certos anos elas chegam a variar em um dia. Tudo depende da posição das estrelas e dos planetas no céu.

    Alguns simples minutos a mais ou a menos têm a capacidade de determinar sob qual signo uma pessoa nasce. E se ela nascer no limite, há boas chances de que tenha características de ambos os signos: o signo cujo período acabou de terminar e aquele cujo período está começando. Mas eu não tinha de me preocupar com nada disso. Nasci em cinco de novembro, bem no meio do período de Escorpião.

    Os escorpianos sentem as coisas com mais intensidade que a maioria das pessoas, à exceção talvez dos leoninos. O Escorpião é também um signo fixo. Isso significa que somos teimosos, concentrados e perseverantes. Uma vez tomada uma decisão, não voltamos atrás.

    Pare de viver no passado e olhe para o amanhã, meu horóscopo avisava. Sua recompensa poderá ser um novo amor. Mas velhos hábitos são difíceis de mudar, especialmente os que têm a ver com o coração. Alguém de Touro aparecerá na sua vida para curar antigas mágoas. Coloquei o jornal de lado, refletindo sobre aquela previsão. No geral, soava bastante boa, sobretudo aquela frase a respeito de um novo amor. E o fato de que poderia surgir um taurino em cena era mesmo ótimo.

    O signo de Touro (20 de abril a 20 de maio) é o meu complemento astral. Meu par perfeito no plano astrológico. Os taurinos são muito práticos e pé-no-chão. É um signo de terra fixo, o que faz deles a compensação perfeita para os escorpianos: um signo de terra fixo proporcionando base sólida a um signo de água fixo.

    Pensei comigo que precisava me lembrar de confirmar se Dean era realmente de Touro. Mas eu não tinha muita dúvida. Todos os meus instintos diziam que era. Ele não tinha desistido de mim durante toda aquela história horrível com Garth Hunter. E, além disso, tinha me convidado para o baile ...

    - Natalie, espere um pouquinho! - Dean chamou-me duas semanas atrás, quando eu subia a escadaria na entrada do nosso colégio, o Emerald High School.

    Por ser muito verde, Seattle é chamada de Emerald City _ a cidade esmeralda. Daí a origem do nome da nossa escola. Mas os estudantes da Emerald garantem que a escola ganhou esse nome por outra razão: o limo verde que sempre parece estar escorrendo das paredes dos banheiros.

    A jaqueta de Dean estava molhada e havia gotas de chuva em seus cilios. Fiquei maginando se ele podia ouvir meu coração, que de repente disparara.

    Fazia tempo que eu andava tentando encontrar uma maneira de mostrar a ele que eu já tinha superado toda aquela história com Garth, mas não conseguira bolar nenhum plano consistente. Na verdade, Dean nunca chegara sequer a me convidar para sair. Portanto, não era que eu tivesse dado um fora nele, nem nada parecido. Era mais como ter dado um

fora na possibilidade de ter algo com ele.

    - Será que nunca pára de chover nesta cidade? Dean reclamara enquanto a porta da

    escola batia atrás de nós.

    - Não em fevereiro - respondi. - No ano passado choveu em vinte e seis dos vinte e oito dias do mês.

    - Essa não - ele disse. - Vou voltar para o Arizona. Lá, a gente gosta de uma boa tempestade, mas de areia.

    Rindo, eu caminhava na direção da classe de inglês.

    - Natalie - Dean recomeçara, atrás de mim. - Eu andei pensando ...

    Eu me detive, voltando-me em sua direção. O rosto de Dean parecia um pouco tenso, mas muito determinado.

    - Você já tem companhia para o baile do Dia dos Namorados?

    E foi assim que aconteceu. Nada de querer fazer com que eu me sentisse mal pelo que ocorrera ou deixara de ocorrer entre nós. E Absolutamente nenhuma menção a Garth Hunter. Naquele instante eu soube que Dean era de Touro. Ele não tinha ficado magoado nem fora agressivo. Mantivera-se o tempo todo de cabeça erguida e equilibrado, no clássico estilo taurino. Imediatamente eu soube que meu instinto não havia se enganado com relação a Dean. Nós poderíamos ter um futuro juntos.

    Mas então, o que quer dizer esse negócio de estar vivendo no passado?, perguntei a mim mesma, relendo meu horóscopo no jornal.

    Fiquei pensando naquela previsão por alguns minutos, enquanto olhava para os números no meu relógio, que agora já marcava 00:30. Finalmente saí da cama. O chão de madeira estava frio, mas nem pensei em calçar os chinelos. Eu tinha uma missão a cumprir. Atravessei o quarto na ponta dos pés e abri a gaveta inferior da cômoda. Escondida debaixo das minhas camisetas, que esperava pacientemente pelo próximo verão, havia uma velha caixa de papelão com gravuras douradas na tampa. Levei-a comigo de volta para a cama. Com delicadeza, levantei a tampa.

    Dentro da caixa jaziam todas as lembranças da minha relação com Garth. E a maior parte era composta de recortes do jornal da escola. Eu tinha guardado tudo o que já fora publicado nele a respeito de Garth Hunter. Havia um artigo sobre sua candidatura à presidência do grêmio estudantil (ele perdera, mas não ficara nada constrangido com a derrota). E um outro, com uma foto que o mostrava sentado no banco de reservas, depois de ter sido expulso de um jogo de basquete.

    Mas a lembrança de que eu maIs gostava era uma foto de nós dois juntos. Fora tirada no último outono, na festa de boas-vindas aos alunos novos.

    O braço de Garth envolvia meus ombros. Ele sorria para a câmara. Eu sorria para ele. Havia tanto amor em meu rosto que até um cego poderia enxergar isso. Mas, com exceção daquela expressão no meu rosto, tudo o mais naquela fotografia tinha sido uma farsa.

    A foto publicada no Emerald Times tinha sido a vingança de Garth contra Tanya. Uma prova material de que ele não se importava com o fato de ela ter dado o fora nele. E quando Tanya viu a foto de Garth abraçando outra garota estampada na primeira página do jornal da escola, fez exatamente o que Garth queria: voltou rastejando para ele. Por que eu ainda guardo estas coisas?, perguntei a mim mesma, enquanto olhava para a zombeteira expressão de triunfo no rosto de Garth. Mesmo agora, olhar para aquela foto ainda me dava um aperto no coração. Não por ter perdido Garth, mas por ter sido tão

    idiota. Desde o começo eu deveria ter sido esperta o bastante para perceber que Garth não passava de um monte de escória.

    Meu horóscopo está certo, pensei. De fato, eu ainda não estava andando para frente. Enquanto continuasse agarrada àquelas lembranças de Garth, continuaria vivendo no passado.

    Saí de novo da cama, agora calçando meus felpudos chinelos vermelhos. Vesti meu robe de algodão atoalhado também. Desci as escadas na ponta dos pés, tomando cuidado para não acordar meus pais. Não tinha a menor vontade de explicar a minha mãe por que estava vagando pela casa àquela hora da noite, com uma caixa de papelão debaixo do braço.

    Mas sabia o que tinha que fazer. Fui para a cozinha, levantei a tampa da lata de lixo e esvaziei nela todo o conteúdo da minha caixa de lembranças de Garth Hunter. O passado estava morto. Era hora de enterrá-lo.

    Peguei uma velha espátula numa gaveta do armário da cozinha e, com ela, fui empurrando cuidadosamente cada uma das fotos de Garth para debaixo de uma grossa camada de pó de café molhado.

2

DEAN

Gêmeos (21 de maio 20 de junho)

    Recomeço! A oportunidade pela qual você esperava está bem aí na

    esquina. Agora é a sua hora de reparar velhos erros.

    Mas não deixe que seu entusiasmo o desvie do caminho certo.

    Quando estiver em dúvida, dê-se um tempo.

    Você está parecendo um babaca, disse a mim mesmo no espelho do banheiro. Eu tentava sem sucesso enfiar o dedo indicador entre o colarinho excessivamente apertado da camisa e meu pomo-de-adão. Para que toda essa bobagem de traje a rigor, afinal? Os publicitários levam as pessoas em geral a acreditar que os smokings fazem um cara parecer romântico. Mas, na minha opinião, a única coisa que realmente fazem é suprimir a capacidade para não dizer a vontade de o sujeito respirar.

    - Você está mesmo parecendo um pouco híspido disse John Muirhead, meu melhor

    amigo, enquanto me observava da porta do banheiro.

    Híspido?, pensei. A média de John na escola é 9,5. Ele gosta de usar um tipo de vocabulário que normalmente só pode ser encontrado nos melhores dicionários. - Me sinto como se estivesse sendo estrangulado até a morte gemi.

    - Você está parecendo um almofadazinha! meu irmãozinho, Randy, gritou de seu quarto.

    - Almofadinha corrigiu Roy, seu irmão gêmeo.

    Do lado de fora da porta, ouvi John emitindo estranhos sons abafados, como se estivesse engasgado. Supus que era por estar tentando não rir. Por alguma razão misteriosa, John acha meus irmãozinhos gêmeos terrivelmente divertidos. Com certeza, por que não tem de viver com eles.

    - Sabe que seus irmãos têm razão, Dean? disse John. Com essa roupa, acho que você

    ficaria muito bem no joelho de um ventríloquo.

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