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CPAS_Podia_Ser_Vocby_digitaliz

By Jesse Woods,2014-09-14 05:02
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CPAS_Podia_Ser_Vocby_digitaliz

    Só Podia Ser Você - Stephanie Doyon

    Só Podia Ser Você (It Had To Be You) - Stephanie Doyon

    Protagonistas: Rebecca Lowe e Jordan West

    Rebecca Lowe está apaixonada. O único problema é que ela nunca viu o garoto. Ou será que viu? Depois de semas trocando cartas de amor pela internet, terá finalmente a chance de um encontro com sua paixão cibernética, no baile da escola. Mas quando vê Jordan West aparecer no local do encontro secreto, fica sem saber o que fazer. Ninguém pertuba tanto sua paciência quanto esse rapaz, Jordan, com sua mania de salvar o planeta. No entanto, pela Internet, ninguém parece entendê-la melhor do que ele. Será que esse cara todo esquisito vai acabar sendo o grande amor de sua vida?

    "Nosso sonho comum estava claramente delineado a minha frente. Eu imaginava Antônio com tanta nitidez que ele parecia estar ali do lado, o smoking preto combinando com seus cabelos escuros sedosos, o brilho da lua refletido em seus olhos, o jeito carinhoso como pegava na minha mão enquanto dançávamos sob as estrelas." - Rebecca Lowe

     Um anúncio pessoal

    Isso é loucura! falei, rindo alto. Eu tinha lá minhas dúvidas em fazer um anúncio pessoal pela rede da escola, mas não íamos tirar pedaço de ninguém escrevendo uma bobagem qualquer.

    Depois de pensar um pouco sobre o assunto, Leslie e eu redigimos este texto:

    Sou de Capricórnio, bonita, tenho 1,56 m de altura, cabelo castanho claro comprido, olhos cor de chocolate. Adoro ver o pôr-do-sol, tocar saxofone e viajar.

    Enquanto eu tentava pensar em mais alguma coisa para dizer, Leslie digitou mais duas linhas.

    Procuro alguém maravilhoso para ir comigo ao baile de boas-vindas. Mesmo que ainda faltem seis semanas, nunca é cedo demais para encontrar alguém!

     Não sei se gosto dessa última parte falei. Parece que estou desesperada.

     Você não vai conseguir o que quer a menos que procure, Rebecca. Leslie

    então digitou a palavra enviar e pressionou o Enter.

    Endireitei-me na cadeira, meio em pânico. A simples idéia de enviar um anúncio pessoal que todo mundo pudesse ver, ainda que fosse anônimo, me deixava muito nervosa. Eu sabia que havia mais de mil alunos no Colégio Westfield, mas e se alguém descobrisse que aquele anúncio era meu?

     Hum... espe-espere um pouco gaguejei. Acho que não

    quero fazer isso...

    Mas o dedo de Leslie já tinha apertado a tecla. Desculpe disse ela,

    mordendo os lábios. Tarde demais!

    Um

     Presta atenção, Rebecca. Até o final do primeiro trimestre, A gente já vai ter um

    namorado. Dois supergatos do último ano

     disse minha melhor amiga, Leslie Weaver, seguindo-me pelo corredor para a quarta aula do dia.

    Eu andava com o maior cuidado, rezando para não escorregar naquele chão encerado, do alto de meus sapatos de salto novos.

     Não é má idéia, mas por enquanto me contento com alguém que queira ir ao baile comigo.

     Estamos no segundo colegial, Rebecca. A gente precisa pensar alto. De

    repente, Leslie ficou séria e parou sem avisar. Espere um pouco.

     O que foi? perguntei ao mesmo tempo que levava o maior escorregão pela rampa, indo parar na entrada da sala.

    Leslie pressionou os lábios com força, como se estivesse diante do maior

    acontecimento. Aí, como se tivesse caído das nuvens, apareceu o gatérrimo Mark Pierce, primeiro goleiro do time de futebol da escola, atravessando o corredor a toda. Espiamos aquelas formas perfeitas e musculosas passarem voando por nós e tentamos não desmaiar.

     Como é que você consegue? perguntei, o olho ainda grudado nos braços malhadíssimos de Mark.

     É meio que um sexto sentido, ou algo do gênero falou Leslie, abanando a

    cabeça. Ou quem sabe é um radar. Mas o fato é que ultimamente sempre sei quando tem algum gato por perto. Ela jogou os cabelos escuros para o outro ombro. Isso ajuda todas as mulheres do mundo. Preciso fazer também. Eu ri. Detesto parecer pessimista, mas até mesmo com um talento extraordinário como o seu, duvido que a gente consiga sair com o Mark. Ou, para falar a verdade, com qualquer outro sarado do último ano.

    Leslie deu de ombros. Tudo bem, então eu me contento com um cara do segundo ano que tenha um cachorro simpático disse ela, enquanto entrávamos no

    laboratório de informática.

    Havia somente um computador disponível na primeira fileira, bem em frente à mesa do professor Meyers.

     Sentamos. Eu até entendo que você esteja querendo arranjar um namorado

    falei, tirando fiapos de linha da minha saia creme estampada com flores lilás, cor de alfazema. Mas a minha preocupação é com o baile.

     Por que toda essa preocupação com o baile? Leslie me

    olhava com os olhos franzidos.

    O professor Meyers lançou-nos um olhar de censura, através dos óculos de lentes grossas. Escondi-me atrás do computador e cochichei: Você se lembra do que

    aconteceu o ano passado?

     O quê? O Arnie? A boca de Leslie tremeu, estava tentando não dar risada. Tremi inteira. Fiquei tão sem graça, não sabia onde enfiar a cara. Além de aparecer com aquele smoking roxo apertadíssimo, na hora em que ele começou a chacoalhar no salão... Meu estômago se contraiu só de lembrar. Aquela deve ter sido uma das e piores noites de minha vida.

     É isso que dá sair com o filho da tia contadora retrucou Leslie brincando.

     Mas eu queria tanto ir falei.

     Pessoal! O professor Meyers pigarreou alto. Agora silêncio, pessoal.

    Quando todos se acalmaram, ele distribuiu o programa do curso, a lista de material e um folheto de quatro páginas com o regulamento para utilizar o laboratório de informática. Boa parte da classe suspirou fundo. Estávamos todos para lá de desanimados. Começava um novo ano na escola.

    Enquanto o professor Meyers se dirigia para o fundo da sala, eu perguntei à Leslie com ar malicioso. Por que você não vem assistir aos ensaios, hoje à noite? O Donny vai estar lá.

     Não, muito obrigada. Leslie fez uma careta de nojo.

     Duas noites por semana, eu ensaiava com uma banda de jazz, integrada por alunos da

    escola. Eu tocava saxofone e Donny, bateria. Ele estava a fim da Leslie e, no ano anterior, dera em cima dela o tempo inteiro. Eu achava o Donny um sujeito muito legal, mas no entender da Leslie ele era fissurado demais, Está no último ano

    acrescentei.

    Leslie abanou a cabeça. Isso não tem nada a ver. Dei-lhe uma cutucada. E ele tem

    um cachorro super simpático.

     O cabelo dele é muito crespo. Prefiro ficar em casa, nem que seja fazendo depilação, muitíssimo obrigada. Encostou na carteira e cruzou os braços. Quero conhecer

    alguém novo,

     Por que você não põe um anúncio nos classificados pessoais? Claro que eu

    estava só brincando, mas antes que desse por mim, os misteriosos olhos verdes de Leslie começaram a piscar feito faróis de trânsito. Deu para perceber na hora que sua cabeça já tinha engatado uma quinta.

    Não é má idéia disse ela muito séria, folheando a pilha papéis sobre a mesa.

    Talvez funcione.

     O professor Meyers começou a escrever alguns avisos na lousa, com aquela mesma letra rebuscada que conhecíamos desde o segundo ano primário. Bem - vindos, todos

    vocês disse, com entusiasmo excessivo. Em seguida bateu palmas com as mãos sujas de giz esfregando-as, como um vilão de filme mudo. É muito bom ver tantos

    rostos sorridentes e bronzeados.

    Leslie virou os olhos. Abri meu caderno novo de quinhentas folhas e tirei a tampa da caneta. Cinco minutos depois do começo da aula eu já estava com aquela sensação desagradável de que informática não seria minha matéria preferida.

    O professor Meyers passou a mão pelos poucos fios de cabelo castanho e sentou-se na quina da mesa. Caso vocês ainda não tenham ouvido as boas notícias, durante o verão a diretoria da escola concordou em aumentar o orçamento do departamento de informática. Entre as muitas mudanças, acabamos de instalar um sistema de correio eletrônico. A partir de hoje, todos os alunos do Westfield poderão ter o seu.

    Leslie e eu nos entreolhamos, sem saber se aquilo era alguma piada. Quando percebemos que o professor Meyers não estava brincando, todos na classe começaram a falar ao mesmo tempo. Alguns meninos sentados na última fileira começaram logo a fazer uma lista dos melhores jogos de computador que

    carregariam direto da Internet.

    Mas o professor Meyers levantou as mãos e pediu silêncio. Antes que vocês

    fiquem animados demais, deixem-me esclarecer uma coisa. O serviço está limitado ao envio de e-mails entre alunos desta escola. Não haverá acesso a redes externas.

    Um descontentamento geral percorreu a classe.

     Mas haverá um site para onde vocês poderão enviar mensagens e também participar de discussões acrescentou o professor, animadíssimo.

     Grande coisa! resmungou Randy Potter em voz alta.

    O professor Meyers franziu a testa e olhou feio na direção de Randy. Pois

fique o senhor sabendo que vai achar isso muito interessante disse com voz

    severa. Vocês terão o resto do tempo, hoje, para conhecer o programa. Está tudo indicado na folha de instruções. Eu estarei aqui para sanar qualquer dúvida.

    O burburinho aumentava, à medida que as duplas se instalavam diante dos micros. Virei-me para Leslie. Parece meio gozado, não parece? Por que mandar

    uma mensagem para alguém pelo computador, quando podemos entregar um bilhete ou conversar diretamente?

    Mas Leslie estava ocupada digitando. Em questão de segundos, sem consultar nenhum dos papéis que o professor Meyers nos dera, já tinha descoberto como entrar no sistema de correio eletrônico.

     Como é que você sabe isso tudo?

     Minha mãe acaba de se conectar a Internet por conta do trabalho. Ela me ensinou a usar sistemas como esse. Correio eletrônico é o maior barato, Rebecca. Você sabia que dá para batei papo e até mandar mensagens sem se identificar? É mesmo? Perguntei lembrando-me de todos aqueles que furavam a fila da cantina, bem na minha frente, e dos risinhos que de vez em quando ouvia ao fazer alguma pergunta na aula. De repente, imaginei usar o e-mail para me vingar de todo mundo que tinha sido cruel comigo. Poderia enviar um monte de mensagens, daquelas que fazem mal ao ego, do tipo Quando foi a ultima vez que você fez hidratação no cabelo?

    Ou então Agora é a sua avó quem está comprando suas roupas?

     Leslie digitou sua senha com as unhas compridas pintadas de rosa. No

    computador da minha mãe, dá para conversar com gente do mundo inteiro. Você precisa, qualquer dia, dar um pulo em casa para experimentar.

    Meu lado ruim se acalmou e olhei para ela com um certo ceticismo. Ainda assim

    não me parece muito prático.

    Uma lista de palavras e comandos estranhos apareceu na tela Pense em todas as

    possibilidades disse Leslie, cada vez mais animada. A gente pode até usar o

    computador para conhecer alguns meninos. Tudo que precisamos fazer é colocar um anuncio pessoal. E piscou para mim.

     Les, você pirou falei suspirando. O professor Meyers Esse que o site é para

    discussões, não para arranjar encontros.

     Deixa de ser careta, Rebecca. É só de farra. Leslie me olhou com olhos de

    censura. Além do mais, ninguém vai saber e somos nós. Meu pseudônimo vai ser Sabrina.

     E começou a digitar seu próprio anúncio. Era tão natural o que ela estava fazendo que me perguntei em segredo se alguma vez ela já tinha feito algo parecido. Sou deslumbrante, de Escorpião, tenho 1,64 m de altura, cabelo castanho ondulado e olhos verdes de matar, adoro ação, montanha-russa e dar mosh nos shows. Tenho

    espírito aventureiro com muito senso de humor e procuro alguém, igual para diversão, farra e possível relacionamento a longo prazo. Esquisitões não, por favor.

     Leslie digitou mais umas poucas letras e num abrir e fechar de olhos o anúncio disparou pelo espaço cibernético, indo parar no mural mantido pelo computador central da escola. Adoro a tecnologia sentenciou ela, com um suspiro fundo.

    Depois olhou para mim. Agora é a sua vez.

    Assustada, olhei o cursor piscando na tela. Não acredito que ela tenha feito isso,

    pensei. Leslie tinha o dom todo especial de inventar os programas mais estranhos que sempre acabavam me deixando com cara de idiota por não ter concordado. Não que eu não tivesse coragem; é que, na maioria das vezes, não via sentido.

     Vamos, coragem. Leslie tentava me convencer. Vai ser divertido.

    Levantei os olhos da tela do computador. Ela me olhava na maior expectativa.

    Está bem disse ainda hesitante. Olhei para minha saia e para minha malha lilás.

    Vou me chamar Alfazema.

     Pois Alfazema será sorriu Leslie. O que você quer que eu escreva,

    Alfazema?

     Isso é loucura! falei, rindo alto. Tinha lá minhas dúvidas quanto a fazer um anúncio pessoal pela rede da escola, mas não íamos tirar pedaço de ninguém só redigindo uma bobagem qualquer.

    Depois de pensar um pouco sobre o assunto, Leslie e eu redigimos este texto:

    Sou de Capricórnio, bonita, tenho 1,56 m de altura, cabelo castanho claro comprido, olhos cor de chocolate. Adoro ver o pôr-do-sol, tocar saxofone e viajar.

    Enquanto eu tentava pensar em mais alguma coisa para dizer, Leslie digitou mais duas linhas.

    Procuro alguém maravilhoso para ir comigo ao baile de boas-vindas. Mesmo que ainda faltem seis semanas, nunca é cedo demais para encontrar alguém!

     Não sei se gosto dessa última parte falei. Parece que estou desesperada.

     Você não vai conseguir o que quer a menos que procure, Rebecca. Leslie

    então digitou a palavra enviar e pressionou o Enter.

    Endireitei-me na cadeira, meio em pânico. A simples idéia de enviar um anúncio pessoal que todo mundo pudesse ver, ainda que fosse anônimo, me deixava muito nervosa. Eu sabia que havia mais de mil alunos no Colégio Westfield, mas e se alguém descobrisse que aquele anúncio era meu?

     Hum... espe-espere um pouco gaguejei. Acho que não quero fazer isso...

    Mas o dedo de Leslie já tinha apertado a tecla. Desculpe disse ela,

    mordendo os lábios. Tarde demais!

    Assim que as aulas terminaram, naquela tarde, peguei o estojo do meu saxofone, a mochila de couro e fui para o Java Joe, onde minha banda costumava ensaiar. O Java era um barzinho na rua do Comércio em que se apresentavam algumas bandas da cidade e, de vez em quando, alguém fazia leitura de poesias. Nossa banda ainda não estava exatamente pronta para fazer seu próprio show, mas o dono, Joe Mills, era legal o suficiente para nos deixar usar a saleta dos fundos como local de ensaios.

    O barzinho ficava quase a um quilômetro da escola e não foi fácil ir a pé com a mochila cheia de livros e de lição de casa. Mas não me importei. Não era de todo mau aquele ar geladinho de começo de outono no Maine, assim como não era de todo má a promessa de um novo ano letivo. A mistura me deu uma sensação de força, de ser invencível, como se eu pudesse fazer qualquer coisa.

     Rebecca, que bom ver você! Joe me cumprimentou com um abraço caloroso

    e um sorriso. O rosto redondo e liso estava queimado de sol. Joe passara o verão inteiro em Houth Harpswell, onde tinha num chalé. Como foi de férias?

    Comparei a cor do meu braço levemente dourado com o dele, bronzeadíssimo, e disse rindo: Não tão bem como você. Deve ter sido muito duro passar todos os dias de bobeira na praia. Nossa, incrível como você está moreno!

    Joe coçou a parte de cima da cabeça onde os cabelos já rareavam. Isso não é sol!

     Disse rindo também. Isso aqui é de todo o café que eu tomo. E deu mais outro

    gole numa caneca gigante, com o logotipo azul e laranja do Java Joe. O que você

    ai tomar? Um cappuccino?

     Não, obrigada disse, fazendo uma careta. Não havia nada pior do que um bocal de sax com cheiro de café. Só água.

     Vai indo falou Joe, balançando a cabeça na direção da saleta dos fundos.

    Eu levo sua água, já chegou todo mundo.

    Empurrei a porta e em vez de ser assaltada pelo barulho da bateria e da guitarra, como esperava, a sala estava em silêncio. O equipamento continuava guardado, o palco às escuras. Ninguém fazia aquecimento, estavam todos sentados em volta de uma das mesas pretas do bar, jogando baralho.

     Ei, meninos falei, tirando a mochila das costas.

     Pelo que vejo, a principal atração do Synergy está de volta para mais um ano de maus tratos disse Donny, de olho nas cartas. Seu cabelo ruivo encaracolado estava todo em pé. Achamos que não fosse aparecer.

     E não ia mesmo, mas mudei de idéia na última hora falei, só para

    provocá-los.

    Buzz, nosso guitarrista, usava seu uniforme de praxe camiseta desbotada do Led

    Zeppelin, calça verde do exército, rasgada no joelho, e sapatos Doe Martens. Deu uma carta para cada jogador e bateu com o resto do baralho na mesa. Estamos

    prontos para começar, Rebecca. Quer entrar?

    Virei uma cadeira para trás e sentei-me de atravessado. Na verdade eu queria

    mesmo é que a gente começasse a ensaiar.

    Ninguém me deu bola. Marissa, que era nossa tecladista, além de namorada de Buzz, debruçou-se sobre o ombro dele e apontou para uma carta. O baixista, André, descartou um dois de copas e pegou outra carta do monte. Sua vez, Donny.

    Encostei o queixo no espaldar da cadeira. Foi isso que vocês fizeram o verão

    todo?

    Donny comprou o dois de copas e jogou fora um seis de paus. Fiz mais umas

    outras coisinhas. Já viu o bombo?

    Próximo ao palco, vi as peças da bateria. O bombo estava deitado de lado. Pintado com letras negras no estilo gótico via-se o nome da nossa banda, Synergy. O nome tinha sido idéia da Marissa sinergia, união de forças para a realização de uma ação coordenada.

     Que demais! Quem pintou?

    Marissa sorriu toda tímida apontando para si mesma. Não gostava de falar, a menos que fosse absolutamente necessário.

    Joe entrou com uma grande jarra cheia de água e uma pilha de copos de papel. Um cara alto, de cabelos loiros fartos e um enorme camisão xadrez por cima da camiseta entrou logo atrás. Tinha um corpo atlético, musculoso, e um rosto suave. Sabia que o conhecia, mas não conseguia me lembrar de onde, nem de quem ele era.

     Por que está tudo tão calmo aqui? perguntou Joe, colocando a jarra em cima

    de uma das mesas. Pensei que vocês viessem aqui para ensaiar.

    Dei uma olhada para a mesa de controle ao lado do palco e para a fileira de luzes

    apagadas no alto. Seria difícil começar os ensaios sem nosso técnico.

     Cadê o Nick? perguntou Donny, como se lesse meu pensamento.

    A testa de Joe franziu-se enquanto servia um copo de água. Agora que

    estamos todos reunidos, vou contar a última bomba para vocês falou ele, com

    relutância. O Nick pediu demissão ontem.

     O quê? Meu coração quase saiu pela boca.

    Joe sacudiu a cabeça. Ele me ligou do Colorado. Conheceu uma garota, nas férias, e não vai voltar.

    Os olhos de André se iluminaram. Sorte dele, cara.

     E azar nosso disse eu. O Nick sabia tudo de técnica de show, além de

    conhecer de cor algumas das nossas músicas. Era como se ele fosse o sexto integrante da banda. Estávamos quase chegando lá, estávamos todos fazendo a maior fé de que naquele mês conseguiríamos arrumar algum lugar para fazer um show. Claro que eu estava feliz por Nick ter encontrado seu verdadeiro amor nas Rochosas, mas ao mesmo tempo não podia evitar de me sentir um pouco traída.

    Buzz tirou o cabelo da frente dos olhos. E aí, o que a gente faz?

     Já está tudo arranjado falou Joe, afastando-se um pouco e fazendo um

    gesto para que o cara de camisa xadrez se adiantasse. Este é Jordan West, que

    vai substituir o Nick. Vocês já conhecem o Jordan, não conhecem?

    Buzz e Donny fizeram que sim.

    Jordan West... o nome era familiar. Dei uma espiada rápida nos olhos

    castanho-escuros e na boca graciosa. De onde conheço esse cara? Aí, de repente,

    lembrei. O pai dele era o doutor Albert West, diretor do departamento de música da universidade Bauer onde meu pai era professor de economia. Agora me lembrava de tudo. Jordan, surpreendentemente, não fazia parte da banda da escola, mas gastava o tempo defendendo um monte de causas diferentes. Era um daqueles ativistas chatos que sentiam prazer em discorrer sobre as horríveis conseqüências de tudo que todo mundo comia, bebia e respirava. Se jogasse metade das energias que dedicava à luta contra a indústria de peles na nossa banda, Synergy faria um tremendo de um show. eJoe deu um tapinha nos ombros de Jordan. Você já conhrce todo mundo, não

    é mesmo?

    Jordan balançou a cabeça alguns instantes, depois olhou pra mim. Nosso olhar

    se cruzou e eu prendi a respiração um momento, fitando aqueles olhos castanhos profundos. Exceto ela disse para Joe. Ela eu não conheço. E apontou

    direto pai mim.

    Soltei a respiração devagar, como ele não sabia quem eu era. Afinal, nossos pais trabalhavam no mesmo lugar e nós estudávamos na mesma escola. Um brilho maroto em seus olhos me fez pensar se ele não estaria apenas fingindo.

     Eu sou Rebecca Lowe. E estendi a mão.

     Como? perguntou Jordan, como se não tivesse entendido direito. Inclinou-se mais para perto e pude sentir seu cheiro -, almiscarado.

     Rebecca repeti, um pouco mais alto.

     Rebecca disse Jordan de novo, pensativo. Trocamos um cumprimento. Sua mão estava quente. Prazer em conhecê-la Becky.

    Dei um sorriso forçado. Ninguém jamais me chamara de Becky e vivera para contar a história. É Rebecca.

    Jordan sorriu. Certo.

    Joe virou-se e foi em direção à porta. Bom ensaio para vocês, turma.

    Virei-me também e abri o estojo do sax, ansiosa para começar. O calor dos dedos de Jordan ainda continuavam em minha mão, mesmo depois de ter tocado no metal frio

    do instrumento.

     E então, Jordan, há quanto tempo você trabalha na mesa de som? perguntei.

    Não houve resposta. Quando me virei de novo, vi que ele estava junto à mesa de jogo.

     Buzz examinou suas cartas e pegou mais duas. Assim que a partida acabar,

    Jordan, você entra. Os músculos de minha nuca travaram. Eu tinha uma tonelada de coisas para fazer e não estava a fim de perder meu tempo vendo aqueles caras jogarem baralho. Não vai ter mais nenhuma partida falei com firmeza.

    Eles continuaram jogando como se eu não tivesse dito nada. Jordan olhou para a guitarra branco-perolada de Buzz, encostada no amplificador. Bela guitarra. Eu

sempre quis uma Paul Reed Smith.

    Buzz acenou, cheio de orgulho. Não é o máximo? Meu sangue começou a ferver.

     Vamos lá, pessoal, vamos começar logo o ensaio falei.

     Buzz me ignorou. Eu tenho um pedal de distorção em casa falou para Jordan.

     Vou trazer da próxima vez. Jordan soltou um assobio sonoro. Pô, cara, legal!

    Rapidamente, executei algumas escalas no sax, na esperança de que a conversa acabasse antes dos meus exercícios. Mas Buzz e Jordan continuavam empolgados, falando de tudo um pouco, desde guitarras acústicas de doze cordas até compassos mais complicados.

    Donny baixou seu jogo, o rosto aberto num sorriso de orelha a orelha. Bati!

    exclamou cheio de si. Puxa, cara... André jogou suas cartas na pilha. Eu te pego na próxima. Recolheu as cartas e começou a embaralhar. Cerrei os punhos, uma onda de raiva subindo pela garganta. Guardem essas cartas exigi

    estridentes.

    Jordan me olhou franzindo a testa. Posso lhe fazer uma pergunta, Becky?

     O quê? retruquei ríspida.

     Quando vai ser nosso primeiro show?

    Olhei para ele. Nós ainda não sabemos direito...

     Então por que está tão nervosa? O ar de Jordan era brincalhão. Devia

    aprender a relaxar de vez em quando.

     É isso aí, Rebecca. Relaxa.

    Fechei com estrondo o estojo do sax. Me avisem quando estiverem a fim de tocar. E fui saindo.

     Todo mundo vai jogar? ouvi André perguntar, enquanto dava as cartas para uma nova partida.

    Dois

    O segundo dia de aula foi bem melhor. Havia um clima diferente diante da expectativa da provável chegada de um aluno de intercâmbio. Segundo fontes seguras, da própria secretaria do colégio, o vôo de Antônio Ramirez teria saído de Salamanca, na Espanha, e aterrissado sem problemas, dois dias antes, no aeroporto de Portland. Depois de um dia de descanso, para se recuperar da diferença de fuso horário, Antônio deveria começar a freqüentar as aulas normalmente.

    Pelo comportamento geral, parecia que estava chegando um príncipe ou coisa

    semelhante. Quase todas as meninas vestiram as suas roupas mais atraentes e a maioria dos rapazes fazia pose, todos muito senhores de si. Até então ninguém tinha visto a cara do tal Antônio, mas todo mundo queria ser amigo ou namorada dele.

    Não me deixei impressionar nem um pouco.

    E aproveitei certas vantagens de toda aquela expectativa. Em primeiro lugar, não havia fila na cantina, enquanto o pessoal se aglomerava no saguão de entrada, na esperança de cruzar com Antonio por acaso, consegui comprar meu sanduíche de salada de galinha e um saquinho de pretzels em dois minutos contados no relógio.

     Ei, oi gritou atrás de mim uma voz. Era Leslie, que largou a pilha de livros sobre a mesa e despencou numa cadeira.

     Oi, achei que você estivesse no saguão eu disse, entre uma mordida e outra

    no sanduíche , junto com todo mundo.

    Que nada. É publicidade demais pro meu gosto. E vai saber se o cara não é um chato de galocha. Enquanto falava, Leslie ia atacando os meus pretzels. Além

    do mais, quem é que tem tempo para um estudante estrangeiro, quando eu já tenho cinco encontros para hoje à noite?

    Meus olhos quase saltaram das órbitas. Cinco? Não vem me dizer que

    aquela besteira de e-mail deu certo.

     Para você não?

     Não. Minha caixa de correio esta vazia.

    A testa de Leslie franziu-se. Que estranho.

     Na verdade nem um pouco, se considerarmos o anúncio que você mandou

    reclamei. Aquele desespero todo era o jeito mais certo de espantar todos os meninos da escola.

     A gente conserta isso. Li os folhetos do Meyers ontem à noite e descobri como mudar as coisas no site.

    Dei outra mordida no sanduíche. Então, me conte sobre esses cinco

    encontros.

    O rosto de Leslie se abriu num sorriso malicioso. Bom, não são exatamente

    encontros...

    Pressenti um esquema elaboradíssimo em preparação.

    Leslie inclinou-se mais para perto e disse, em tom confidenciail O que você vai

    fazer depois das aulas?

    Quase senti receio ao responder. Nada. Por quê?

    Ela puxou a manga de minha malha verde-azulada de gola alta. Você precisa

    ir comigo ao Bonanza Burger.

     Antes de concordar, você tem que me contar o que você anda aprontando.

    Leslie olhou em volta da cantina vazia para se certificar de que não havia ninguém ouvindo a conversa. O negócio é o seguinte falou em voz baixa. Os

    caras que escreveram para mim usaram nome fictício, não sei se eles são legais ou se só estão fingindo. Marquei com todos no Bonanza, em diferentes horários. Leslie agarrou meu braço com as duas mãos. Enquanto eles me esperam, eu

    fico numa outra mesa, conferindo a cara de cada um. Se eu gostar, vou até a mesa do cara e me apresento.

    Dei uma olhada de esguelha. E se você não gostar de nenhum?

    Muito simples. Leslie recostou-se de novo na cadeira. Eu não me apresento.

    Sacudi a cabeça. Você não pode dar o bolo em todos os coitados!

     Por que não? Foram só uns e-mails. Não houve nada, nenhum relacionamento ou coisa assim. Você vai comigo?

     Vou disse, ainda que relutante. Mas isso não significa que eu aprove o

    que você está fazendo.

    De repente, o rosto de Leslie se franziu todo, do mesmo jeito que no dia anterior.

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