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CPAO_Amor_Pode_Esperarby_digit

By Willie White,2014-09-14 05:02
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CPAO_Amor_Pode_Esperarby_digit

O AMOR PODE ESPERAR

    Katherine Applegate

TRADUÇÃO

    Luciano Machado

    4ª edição

    título original: Sharing Sam

    Editora Ática

    Impressão e Acabamento

    Lis Gráfica e Editora Ltda

Resumo

Entre o amor e a amizade

    Para Alison, Sam Cody é irresistível: aquele belo rosto, os olhos penetrantes... Quando ele a convida para dançar no baile da escola, fica eufórica. Mas a alegria acaba quando descobre que sua melhor amiga, Isabella, também se apaixonou por Sam. Sofrendo de uma doença incurável, ela está para morrer. Diante desse facto, Alison se conforma e deseja que os últimos dias de Isabella sejam os melhores de sua vida... mesmo que ela e Sam tenham de esconder o seu amor. Mas será que eles podem guardar segredo de um sentimento tão forte?

Sumário

    1. Filho ilegítimo de Mick Jagger

    2. Sinos, apitos e holofotes

    3. Apenas três semanas de vida

    4. Não sou turista, moro aqui

    5. Meus braços ficaram arrepiados

    6. Beijada somente duas vezes

    7. Um tremor desceu pelas minhas costas

    8. Uma velha canção dos Stones

    9. Feliz por algum tempo

    10. Dezesseis anos e nenhum beijo

    11. Não quero mais dividir Sam

    12. Estou morrendo e estou com medo

    13. O sonho virou pesadelo

    14. Ela estava indo para casa conosco

    15. Pensei que fosse desmanchar na areia

1. Filho ilegítimo de Mick Jagger

    Uns diziam que Sam roubara uma loja em Okeechobee. Outros, que ele era traficante de drogas. Fontes bem-informadas do banheiro das garotas garantiam que ele era filho ilegítimo de Mick Jagger. Estávamos entediados com nossas vidas monótonas, e Sam - misterioso e calado - tornou-se o alvo de todo tipo de especulação. Sendo novato na escola e o único garoto no curso de biologia a exibir uma jaqueta de couro preta, não podia ser diferente.

    Sam dirigia uma motocicleta, sem capacete. Num ambiente em que predominavam carros do tipo sedã da hevy e trailers sóbrios, a grande Harley no bloco B dos estudantes chamava a atenção. Cheirava a membros mutilados,

fraturas e mortes prematuras.

    Do meu lugar perto da janela, na aula de espanhol, eu não conseguia desviar os olhos da moto, enquanto conjugava verbos. Imagino que, por causa da Harley, e mesmo ignorando os boatos, não me surpreenderia se por acaso viesse a testemunhar a morte inevitável de Sam Cody, numa segunda-feira, após as aulas.

    Eu estava sentada embaixo de uma árvore no meio do laranjal perto de minha casa. Snickers, minha égua árabe, estava pastando por perto. O dia claro e quente ofuscava como um prisma. Estava com meu livro de história aberto no colo, e para mim era como se o estivesse lendo.

    Ia ao laranjal de vez em quando, às vezes para estudar, mas quase sempre para devanear. O objeto dos meus devaneios era Lance Pots, um garoto brilhante de olhos azuis, da alta sociedade; aluno do penúltimo ano do colegial e presidente do clube de futebol, com quem eu sonhava havia meses, beijando o travesseiro depois dos embalos de sábado à noite. Embora Lance não tivesse a mínima idéia da minha existência, ele sempre teve a gentileza de aparecer em meus sonhos a qualquer momento.

    Mas, ultimamente, sem aviso prévio, Sam Cody começou a aparecer neles também e eu não estava bem certa sobre o que fazer disso daqui para a frente. Sam não era propriamente o tipo de cara por quem me sentia atraída. Ainda que, para falar com franqueza, ele não fosse o pior dos garotos.

    O ronco de uma motocicleta quebrou o silêncio. Eu joguei o livro de lado. Ali não era uma pista de moto. A rigor, nem era uma pista para cavalos. e praguejando, eu fui até a estrada aberta e cheia de poeira que dividia o laranjal. Então vi a jaqueta preta, os cabelos bem compridos, sabia que era o Sam.

    Uma coisa era imaginar uma história tenebrosa com pista de boliche de Orville Redenbacher numa noite de segunda-feira. Outra coisa bem diferente era cair numa armadilha naquele fim de mundo, armada apenas com o borrifador de roupas que minha mãe colocara na minha meia no Natal passado.

    - Ei! - gritei. - Saia da trilha!

    Subitamente, como se obedecesse às minhas ordens, arremeteu e virou. Formando um arco perfeito no ar, precipitou-se fora da estrada. Sam agarrou-se à moto como um domador agarra-se aos cavalos, enquanto ela caía verticalmente no chão, perto da laranjeira, virando uma cambalhota antes de parar.

    A Harley silenciou; o campo se encheu de chilros chiados. Parei, esperando ouvir um gemido ou algum sinal de vida. Nada.

    Enquanto corria até os destroços, preparei-me para deparar com um defunto ensangüentado de olhar fixo - como numa cena de filme de horror. Relembrei as primeiras páginas do meu livro de primeiros socorros. As primeiras eram sobre respiração, mas que diabo era o C?

    A grama mexeu-se.

    Sam estava preso na carcaça retorcida de sua Harley.

    Um pequeno filete de sangue escorreu do lado esquerdo de sua testa, ele abriu os olhos.

    - Isto aqui é o inferno, não é?

    Eu abanei a cabeça, incrivelmente aliviada por ele estar vivo.

    - Flórida - eu disse.

    - Bem perto.

    - Eu estou aqui para salvá-lo - afirmei, nervosa. - Não se

    mova.

    Inclinei-me para examinar seus olhos. Se suas pupilas estivessem dilatadas, seria um mau sinal, embora não me lembrasse por quê. De perto, seu rosto era só ângulos e planos - uma lição de geometria. Seus olhos eram quase negros, testa larga, cílios espessos. Eu estava em dúvida sobre as condições de suas pupilas. Senti um leve cheiro acre de tabaco. Ele fumava.

    Examinei um corte profundo na sua mão esquerda.

    - Você tem desejo de morrer, ou algo assim? - murmurei.

    Ele colocou a mão em sua testa ensangüentada e praguejou.

    - Estourou aquele maldito pneu. Eu não posso acreditar. Faz só duas semanas que eu o troquei! Pô, cara, é de enlouquecer! - Mas por que você não usa um capacete, pelo amor de Deus? É a lei. Além disso - acrescentei - você fuma. Sam encarou-me como se eu estivesse fora de foco.

    - Eu estou deitado aqui, sangrando, à beira da morte, e você fica ralhando comigo?

    - Espero que compreenda a sorte que teve em cair numa moita de grama. Poderia ter sido um monte de pedras. - Felizardo, não!?

    - Não se mova; preciso pensar. Recebi noções de primeiros socorros quando era bandeirante, mas isso foi há sete anos. Sam começou a tirar sua perna do meio dos destroços. Ele se retraiu.

    - Pare - gritei -, a vítima deve ficar imóvel!

    - Eu não sou a vítima - disse ele, alisando um pára-choque retorcido.

    Examinei o ferimento em sua cabeça. Sem dúvida estava sangrando, mas não muito. Eu precisava de algo para improvisar um curativo. Havia somente uma coisa a fazer. Tirei

    minha camiseta. Felizmente eu estava usando a parte de cima do biquíni por baixo dela.

    - Acho que estou no céu, afinal de contas - ele disse Tentei rasgar a camiseta com os dentes. Sempre funciona nos filmes. Os filmes, como sempre acontece, estão cheios de bobagens.

    - Sou Sam Cody, por falar nisso.

    - Eu sei - respondi, e me arrependi no mesmo instante por ter dito isso. Afinal de contas, não havia razão para que eu soubesse. - E você é Alison. - Com a camiseta na boca pisquei. Afinal de contas, não havia razão para que ele soubesse meu

    nome.

    Meu pescoço começou a ficar vermelho. Era difícil

    flertar e fazer curativos ao mesmo tempo.

    - Só vou amarrar isto em volta de sua cabeça - eu disse-lhe. Antes que pudesse protestar, agachei-me atrás dele, rasguei a camiseta em uma longa tira e a amarrei em volta de sua cabeça. Seus cabelos encaracolados caíam suavemente.

    - Oh! - ele estremeceu. - Foi muita sorte ter uma enfermeira à disposição. Levantei-me, limpei os joelhos e admirei meu trabalho - Você pode entrar em estado de choque a qualquer

    momento - disse eu. - Acho que o correto seria cobrir-se com um cobertor. - Você podia usar o seu jeans - ele sugeriu.

    - Vou pegar meu cavalo e colocar a manta dele sobre você. depois vou buscar socorro. Mas tem de me prometer não fugir. - Espera aí - disse ele. E, antes que eu pudesse discutir, livrou-se de sua moto e conseguiu ficar de pé. - Isso está indo longe demais.

    - Eu lhe falei para não se levantar. Você esteve a beira da morte.

- Será que ouvi bem? Você falou em cavalo?

    - Snickers. Ela está ali debaixo de uma árvore. é trilha para cavalos; motos são proibidas.

    - Eu estava apenas atravessando - ele disse. - tem um atalho para a rodovia.

    - Você não viu a placa?

    - Sim, estava escrito: "é proibido atravessar." Qual é a sua razão?

    - Pelo menos eu atravessei a cavalo.

    - Seu cavalo pode alcançar cento e vinte?

    - Não - respondi e chutei o pneu estourado. - Mas agora sua moto também não pode.

    Ele ficou extremamente triste e eu me senti uma idiota. - Olhe, se você não for ficar sentado aqui, esperando por uma ambulância, pelo menos deixe que eu lhe dê uma carona. - Não me dou bem com cavalos. Olhe, obrigado por salvar minha vida. Se você precisar de alguém para testemunhar

    pela sua medalha de honra ao mérito, me telefone. Mas eu estou bem.

    Ele arrancou a camiseta. Ela estava manchada de sangue. - Sinto muito. Comprarei outra para você, embora esteja meio duro agora.

    Abatido, ele olhou longamente sua moto. Eu me perguntei se alguma vez na vida tinha olhado alguma coisa com tanta intensidade.

    - Tenho certeza de que ela tem conserto - disse eu. - Talvez. Você conhece alguém que possa rebocá-la? - Vou ver se me lembro de alguém que possa fazer isso. Ele tirou sua jaqueta de couro preta e jogou-a sobre os ombros. Eu notei um pequeno pacote de lenços Kleenex num dos

    bolsos. Isso me pareceu tão estranho que comecei a rir. De certa forma, eu esperava algo mais sinistro.

    - O que é?

    - Nada. Quer dizer... são os seus lenços de papel. - Meus o quê? - ele estranhou.

    - Nada.

    - Bem... você está com umas belas manchas de sangue - disse ele, despedindo-se.

    Ele desceu a trilha mancando. As botas gastas levantavam pequenas nuvens de poeira. O Sam Cody das loucas especulações e boatos cochichados, que poderia ter matado um homem, assaltado um banco, ou vendido coisas de porta em porta: e não estou me referindo a aspiradores de pó.

    Contudo ele parecia meio patético, com seu cavalo de metal morto na beira da estrada.

    Quando o alcancei, ele estava perto da Snickers que estava amarrada. - Vamos. Posso lhe dar uma carona.

    Sam parou. Seus cabelos estavam empastados

    e o sangue secara. Parecia muito cansado.

    - Olha, nem ao menos a conheço.

    - Você sabe meu nome.

    - Estudante do sexto ciclo - um lugar na frente da fileira. Estou acostumado a ver a sua nuca. Ontem você estava usando um daqueles prendedores de cabelo retorcidos.

    - Você tinha ouvido falar de mim?

    - Ouvi... umas histórias - respondi.

    - Que tipo de história?

    - Sabe como é, se você é novato numa escola, as pessoas comentam.

    - Ih... sei.

    Ficou claro que ele não se importava com isso.

    Hesitei. ele , bem perto de mim, sujo de sangue

    com o suor escorrendo pela testa, parecia muito nauseante.

    Ele era mais velho do que os outros caras da escola. Tinha uns bigodinhos de coelho sujos e um andar autoconfiante. - Você já esteve em Aukeechobee? - perguntei.

    Sam fechou os olhos. Senti que o estava cansando.

    Snickers lançou-lhe um olhar desconfiado. Ele apoiou-se no tronco da árvore. Seu rosto estava cinzento. - Esta é Snickers - eu disse. - Ela não gosta de homens.

    - Tudo bem. Também não gosto de cavalos. Mesmo assim afagou seu dorso. Ela resfolegou.

    - Aqui está o estribo - disse eu, virando o estribo para ele. - O pé esquerdo vai aqui dentro e a perna aqui em cima. Entendeu?

    - Já andei a cavalo. Só que refiro minha condução sem dentes.

    Sam montou vagarosamente. Enfiei o livro na minha mochila, passei-a a ele e montei na garupa. - Você tem certeza de que não vai entrar em estado de

    choque ou algo assim? - perguntei, pegando as rédeas. Você parece meio... bem, como se estivesse morrendo, para falar a verdade.

    - Nada que uma aspirina não resolva.

    Guiei a égua a passos moderados para evitar solavancos

    desnecessários. Segurar as rédeas exigia um ocasional contato de pulso com cintura. Meu pulso e sua cintura rija e quente. Eu sentia o cheiro de suor, de cigarro, grama e pele - tudo misturado com o da égua. Parece horrível, eu sei. Mas não foi.

    Deixamo-nos levar pelo movimento leve e macio, para a

    frente e para trás, enquanto cavalgávamos. Meus seios roçavam as costas de Sam, minhas coxas, as suas coxas. Isso pode parecer muito natural, mas não era.

    Alguma coisa estava acontecendo; algo sobre o que não queria pensar muito. Eu não sabia por que, mas tive a sensação de que Lance Pots estava sendo deixado de lado em meus devaneios.

    Lance tinha lá suas credenciais. Tinha um sorriso cheio de covinhas e olhos azuis. Mas era Sam que estava me proporcionando

    sensações incríveis, sob o sol de 28 graus da Flórida.

    Cavalgávamos tão quietos que cheguei a pensar que ele

    entrara em coma. Quando chegamos à rodovia, puxei a rédea e

    paramos.

    - Moro uma milha mais adiante - disse eu. - Posso lhe

    dar uma carona até o médico.

    - Nada de médicos - disse Sam.

    - Por que não?

    - Estou duro.

    - Eu poderia emprestar...

    Sam apeou do cavalo, movendo uma perna por cima do

pescoço de Snickers. Ele fez uma careta quando pisou no chão.

    - Onde você mora? Não me importaria...

    - Vou pegar uma carona. Obrigado.

    - Você não pode pegar carona.

    Ele olhou para cima, piscando com os olhos meio fechados

    por causa da luz da tarde.

    - E por que não?

    - Você acabará numa pilha de destroços na beira da estrada, tal qual a sua moto. - Sou um cara forte. Vou tentar a sorte.

    - Você se arrisca demais - eu disse, parecendo a mãe dele.

    Desci do cavalo e peguei a mochila. - Pelo menos deixe-me te

    dar dinheiro para o táxi.

    - Não.

    - Uma moeda para o telefone, então.

    Pela primeira vez, Sam sorriu. Ele tocou meu ombro.

    - Estarei bem, Alison.

    Sem saber o que responder, continuei a remexer na mochila

    à procura de dinheiro. Enquanto isso, Sam saracoteou

    Snickers. Ele sussurrou alguma coisa em seu ouvido e ela deve ter gostado, porque normalmente não deixa nenhum

    cara chegar

    a um metro de distância de sua cabeça. Ele se inclinou e beijou seu focinho delicadamente. Nesse momento tomei

    uma decisão muito importante.

    Ele me flagrou olhando e eu puxei uma nota de dez dólares.

    - Tome - eu disse. - pelo menos leve isto.

    Mas no mesmo instante Sam já estava descendo a estrada de

    polegar levantado, calculando suas chances, enquanto os carros passavam zunindo. Eu observava, ele parecia cada vez menor, até que, finalmente, uma pick-up vermelha e caindo aos pedaços parou e

    Sam saltou na cabine. Ela saiu roncando e levantando poeira.

    Fiquei imaginando se ele sobreviveria à corrida, ao dia e ao ano. Eu desejava que sim, porque tinha a louca sensação de que estava prestes a me apaixonar.

2. Sinos, apitos e holofotes

    Enquanto eu soltava Snickers no pequeno celeiro atrás de

    nossa casa, consegui pensar melhor sobre o encontro com Sam.

    Eu quero ser bióloga, e biólogos são bons em lógica, metodologia científica e tudo mais. Pensando bem, que

    informações tinha eu sobre Sam? Que ele era de outro lugar, demonstrava ter tendências suicidas e pouca

    auto-estima. A Harley, a carona e o cigarro.

    Nada muito bom, mas, mesmo assim, não era como se ele lutasse

    com feras num show ao ar livre.

    Ele estava nas classes mais adiantadas, como eu e a Izzy, o

    que era sinal de alguma inteligência, embora não tenha dado

    grandes provas disso. Fiquei sabendo que ele estava faltando às aulas.. Por outro lado, ele não era feio. Bem... talvez esta fosse uma

    descrição muito modesta. é possível que fosse de uma beleza

    tremenda, estonteante. Além do mais, ele levava lenços de papel no bolso e beijara minha égua. escondi o rosto na crina macia e quente de Snickers. Não

havia muito mais a falar: Kleenex e um beijo - que nem fora em

    mim, e muito menos entre indivíduos da mesma espécie.

    Ainda assim, alguma coisa acontecera lá na rodovia. Algo

    muito parecido com os primeiros sintomas de uma gripe: agitação

    interior, pernas bambas, coisas assim.

    Pode ser uma gripe mesmo, pensei. Ou então pode ser que

    eu, logo eu, esteja realmente apaixonada.

    Eu sabia muito bem como seria estar apaixonada: o amor

    chegaria com sinos, apitos e holofotes, igual a um alarme de

    incêndio durante uma prova de matemática: tem plena consciência do que aconteceu, e é o que você mais deseja. Sempre soubera que, quando me apaixonasse, seria assim: como uma queda, um salto do World Trade Center; um mergulho da Skyline Bridge no rio Pampa. Não fique pensando que eu praticara mergulho alguma vez! Ei! não sou louca! Mas, do jeito que o meu estômago estava revirando, não tive dúvidas: a sensação era aquela mesma. Eu estava chegando a algumas conclusões. Sempre pensara

    que quando me apaixonasse seria: a) por Lance Pots ou alguém

    parecido; b) por uma pessoa que não fumasse, não batesse com

    motos, podendo ser ou não filho ilegítimo de Mick Jagger.

    Como os orientadores educacionais gostavam de dizer, eu

    era contraditória. Eu precisava de alguém que me ajudasse a me encontrar. Eu precisava da Izzy. O que nos aproximou foi o interesse que ambas tínhamos

    por ciências. Conhecemo-nos num curso de verão no Monte

    Marine, um laboratório de pesquisa em Sarasota. Eu tinha nove

    anos e ela oito, e éramos as únicas participantes do curso, ansiosas por lidar com cobras lamacentas. Voilá! Melhores amigas no mesmo instante!

    Izzy - nome completo: Isabella Cates Lopes - era brilhante; um gênio comprovado, vivo e real. Uma das semifinalistas da Westinghouse que entrara direto no segundo ano e um crânio em genética. O tipo de pessoa cujo cérebro estava tão avançado em assuntos teóricos que explicá-los para mim seria a

    mesma coisa que discuti-los com um gato. Eu estava estudando

    ciências aplicadas, mais especificamente a questão da preservação das espécies ameaçadas de extinção. Ela era teórica, abstrata, cabeça na "camada de ozônio".

    Mas não éramos exatamente babacas, tipo CDF. éramos

    americanas normais, coradas, de boa aparência, alunas do curso colegial que, por acaso, tiveram pouca sorte na grande loteria dos casais. Cada uma de nós sabia que seu príncipe viria.

    Imaginávamos que eles estavam entrando em cena.

    Naquele momento a minha irmã de dez anos apareceu na porta.

    Habilmente, ela girou uma bola de basquete em seu dedo indicador.

    - Você está com um sorriso horroroso na cara. Parece uma

    vaca de presépio.

    - A Izzy telefonou? - perguntei.

    Não adiantava discutir com ela. Sara estava passando por

    Uma fase detestável, que começara mais ou menos desde que ela

    nascera, pelo que eu me lembrava.

    - Sou sua secretária, por acaso? - Sara afagou o focinho de

    snickers. - Eu estava no clube dos arqueiros.

    - É provável que ela esteja no oftalmologista - disse eu.

    Passei-lhe a sela de Snickers. Sara franziu a testa

e guardou a sela no quarto de despejo.

    - Izzy vai usar óculos? - Sara gritou.

    - Agora não - respondi.

    - Ela tem essas dores de cabeça. E já foi a três oftalmologistas, mas se recusa a acreditar neles, quando dizem que ela precisa usar óculos.

    Sara voltou e ficou num banco, de pernas abertas como

    quem monta a cavalo.

    - Posso sair com Snickers um pouco?

    - Eu acabei de soltá-la, Sara.

    Levei Snickers para o estábulo.

    - E se lembre do que combinamos: se você ajuda a dar comida e a limpar o estábulo, pode montá-la quantas vezes quiser. Senão, nada feito.

    Ela sentou-se lá, praticando seu típico olhar de ódio - uma

    versão menor e piorada de mim. Os mesmos cabelos castanho-claros, olhos cinzentos e a mesma aparência doce e saudável que fazem as avós nos beliscarem as bochechas e com que os

    caras bocejem. Não a odiava do jeito que ela parecia odiar-me, mas eu não tinha dez anos, a idade em que você não tem medo de dizer o que realmente está sentindo. Perto de Sara sentia-me... confusa. De modo geral eu tinha um instinto muito bom para ver o que se passava na mente de outras pessoas. Mas relacionar-se com minha irmã era como lidar com um animal domesticado mal-acostumado, irritante e indisciplinado.

    - Por acaso já lhe falei que a detesto, Al? - disse Sara despedindo-se.

    Fui até o quarto de despejo, sentei-me num baú, sentindo o

    cheiro forte e doce de couro e de sabão da sela. Apertei a tecla quatro, que era o número de emergência da Izzy, no telefone sem fio.

    Laureen, a mãe dela, atendeu. Izzy estava na biblioteca, disse-me.

    Sua voz estava abafada e branda. Eu podia ouvir soluços ao fundo, entremeado de espanhol. - É a Rosa? - perguntei, sentindo uma agitação nervosa em

    meu estômago. Rosa era a tia cubana da Izzy, que morava com

    eles num condomínio à beira-mar.

    - Sim, querida.

    Laureen nunca me chamou de querida". Não era seu estilo.

    - está tudo bem? Agora preciso desligar. Isabella está na

    biblioteca. Você pode falar com ela lá - um soluço ao fundo. Agora preciso mesmo desligar. Ouvi o som do aparelho. Alguém deve ter morrido - foi

    tudo que consegui imaginar. Talvez um dos parentes da Rosa, de Cuba. O pai de Izzy - um escritor famoso - mudara-se de Cuba para os Estados Unidos havia muitos anos. Sua mãe, que divulgara seus livros no mercado americano, cuidara de tudo. Tudo foi muito romântico, pensei. Primeiro, apaixonou-se por suas idéias, suas palavras. Depois, por ele. Muito maior que a vida.

    Peguei as chaves da perua e prometi a minha mãe que estaria

    de volta para o jantar. Lembrei-me da época em que meus pais

    trabalhavam juntos numa próspera clínica veterinária, e

    usavam-na para emergências ocasionais. Uma vez, ela servira de ambulância para um bode que comera uma bacia de Pupperware

    cheia de lentilhas. A perua já estava com um cheiro um pouco

    rançoso, mas convenci meus pais a mantê-la como um carro

    extra. Não era o meio de transporte mais sexy do mundo, mas

    pelo menos eu tinha como me locomover.

    A biblioteca do New College estava praticamente vazia. Encontrei Izzy no lugar de sempre. Era um cantinho agradável, sem a vista de uma janela para desviar a atenção. Ela estava debruçada e os cabelos longos cobriam o rosto. Às vezes, eu tinha inveja de sua beleza: a cor morena exótica de seu

    pai e a intensidade frágil de sua mãe. Seu rosto era longo e os olhos, penetrantes. Era alta, bem alta e elegante, sem

    ser afetada. Era uma beleza que intimidava, que deixava os caras perdidos. Ainda assim, eu daria qualquer coisa

    para estar em seu lugar por um dia.

    Pilhas de grossos livros com títulos prolixos tomavam todo o espaço. Coloquei minha mochila sobre um deles.

    - Izzy - disse eu -, qual é a coisa mais surpreendente que poderia lhe dizer?

    Ela levantou os olhos de um livro. Eles estavam vermelhos. Provavelmente por causa do colírio do oftalmologista, mas havia neles algo mais que me preocupou.

    - Você está bem, Iz? (quer dizer... está acontecendo alguma coisa? Eu telefonei para sua casa e seria capaz de jurar que ouvi a Rosa chorando.

    - Ela está sempre chorando. ela chora até quando vê comercial de algodão com todos aqueles velhinhos.

    - É o que eu imaginava.

    Apontei para os livros.

    - Qual é o assunto? Você não está fazendo algum trabalho extra para a aula do Leach, está? Você vai fazer com que pareçamos umas lesmas.

    - Apenas um pouco de leitura leve.

    Percebi que sua voz estava diferente. Parecia uma mensagem na secretária eletrônica. Li alguns títulos:

    "oncología clínica, Manual de diagnóstico e terapia de Merck e Radiação, "Neurologia fundamental".

    Alguma coisa começou a embolar dentro de mim, apertando, conttorcendo, machucando.

    - Iz, o que o oftalmologista disse? - perguntei.

    Izzy fechou o livro.

    - Qual é a coisa mais surpreendente que eu poderia lhe dizer? - ela perguntou. E, então, começou a chorar.

    Levei-a até a Praia das Tartarugas porque o sol estava se pondo, o mar estava calmo e foi a única coisa que me ocorreu. Fomos ao nosso lugar habitual - uma duna macia onde, em maio passado, observamos uma tartaruga marinha pôr ovos sob a luz brilhante da lua.

    Naquele lugar tínhamos chorado as nossas mágoas: notas baixas, injustiças dos pais, amores não correspondidos. discutimos o eterno mistério de todos os tempos: por que

    os caras são

    tão infantis? Planejamos nosso curso e nossa carreira brilhante. Escrevemos nosso discurso de agradecimento ao Prêmio Nobel e demos nomes aos nossos filhos (Izzy gostava de Guinevere; acho que foi apenas uma fase).

    Às vezes nos permítíamos algumas recordações: os machões

    que discriminavam as mulheres na aula de ciências, o custo de nossa educação e as inúmeras decepções amorosas. Mas nunca tínhamos pensado em câncer no cérebro.

    O sol desapareceu no horizonte. Enterramos os pés na areia fofa. Choramos muito. Não conversamos. Havia muitas perguntas e nenhuma resposta. Finalmente Izzy quebrou o silêncio, rindo de duas gaivotas que disputavam um pedaço de alga marinha. Ouvindo a sua risada, me dei contta de que eu estava furiosa. - Por que não me contou? - perguntei numa voz sufocada. - Você já sabia, Iz. Você tem feito exames. Você não

    estava

    indo ao oftalmologista. Aquela vez em que sentiu tontura, depois da aula de educação física, e disse que era por causa da menstruação... deve ter achado que eu era idiota demais.

    balbuciava, enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto. eu - Fui tão estúpida - acrescentei. - Você é minha melhor amiga, sua boba!

    Ela dirigiu-me seu olhar sereno. Será que havia alguma idéia escondida por trás daquele olhar?

    Eu me senti muito mal. Tudo o que eu disse se encaixava. Esta seria a cena - tudo descoberto - e eu já estragara tudo, gritando com a Izzy quando ela mais precisava de mim. Poderia haver outras cenas: no hospital, talvez, quimioterapia ou radiação e eu teria de saber lidar melhor com elas. Queria agir corretamente: estar com ela até que ficasse bem novamente.

    - Oh, meu Deus! Sinto muito! - sussurrei. - Sou uma tola. Só agora comecei a pensar em você, preocupada e sem ninguém com quem desabafar. Pelo menos eu deveria ter-me preocupado com você.

    - Do que adiantaria nós duas ficarmos nos lastimando? - perguntou Izzy, calmamente. - Os dois médicos diziam-me todo o tipo de coisa: eram os nervos, stress, eu

    precisava de óculos ou era

    gripe... Então eles fizeram o EEG (eletroencefalograma) e vários outros exames com múltiplas letras, e os resultados eram tão contraditórios e diferentes que eu pensei: ainda há muito tempo para me preocupar com isso.

    Ela observava as ondas se chocando umas contra as outras. Só Então, olhou direto nos meus olhos.

    - de qualquer forma, tenho cinco meses.

    Cinco ou seis meses. Até o verão, então.

    - Você quer dizer seis meses, até que fique totalmente curada - disse eu, com esperança de estar certa, embora

    soubesse que

    não estava.

    Ela balançou a cabeça negativanente quase sem perceber. - AtÉ que eu vire comida de verme - respondeu Izzy. Ela agora mordia a unha do polegar. - Embora eu tenha visto que pode ser de três a quatro meses num livro didático. De acordo com as estatísticas, esta parece ser a regra. Varia muito, é claro. Estou pensando no pior.

    - Cale a boca, Izzy! Cale a boca! Não estamos falando

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