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CPAUm_Vero_Inesquecivelby_digi

By Albert Bailey,2014-09-14 05:02
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Um Verão Inesquecível

Elizabeth Craft

TRADUÇÃO: Beth Vieira

Um Verão Inesquecível

    Elizabeth Craft

    "Josh e eu vivemos uma paixão arrebatadora no verão. Mas agora descobri que ele tem namorada. Como vou consegui-lo de volta?"

    Cada uma que o coração agüenta

    Ele era lindo - ainda mais bonito do que a lembrança que eu tinha. - Sara? - Ele chamou. Aquilo era obra do destino, só podia ser. Que outro motivo nos levaria para o mesmo colégio?

    - Minha mãe foi para o Japão - falei, abobalhada. Como se isso explicasse alguma

    coisa. - Vim para cá passar o ano com meu pai.

    Josh sacudia a cabeça para frente e para trás, repetidas vezes, apatetado, sem entender nada.

    - Sara... eu não acredito. - Deu um passo adiante e apertou minha mão. Meu coração saiu fora do compasso.

    - Eu quis ligar e dizer que vinha pra cá - balbuciei. - Mas não tinha o seu endereço. - Pois é, eu sei... - E, com a mesma rapidez com que instantes antes tinha agarrado minha mão, largou-a, frouxa e abandonada.

    - Josh?

    Ele espiava por cima de mim, os olhos azuis alarmados.

    - Raleigh - ele disse.

    Virei o corpo. Raleigh estava parada bem atrás de mim. E sorrindo para Josh. - Ei, amor! - ela exclamou toda feliz. - Você jogou superbem!

    - Obrigado. - Josh afastou-se de mim como se tivessem acabado de anunciar o meu contato com o vírus Ebola.

    Horrorizada, vi Raleigh atirar-se nos braços estendidos de Josh. - Oi Sara - Raleigh me disse, depois de finalmente desgrudar dele. - Você já conhece o meu namorado?

    Desejei pela décima vez ter plantado, naquela manhã, um explosivo qualquer no motor do monstrengo amarelo que iria arrebatar Josh de mim (ou, pelo menos, do estado do Maine e de meu alcance imediato) por tempo indeterminado. Se aquele ônibus enorme enguiçasse por algum motivo, eu teria mais alguns minutos, horas, quem sabe dias para ficar com ele.

    Infelizmente, sempre fui uma cidadã conscienciosa, cumpridora das leis e não cometeria o desatino de destruir um ônibus escolar inteiro. Sendo esse o caso, o único recurso foi me dependurar no pescoço de Josh, como se a pura força de vontade pudesse nos manter juntos para sempre.

    - Esse verão foi muito bacana, Sara. Você é uma garota incrível. - Obrigada respondi em tom lúgubre, fitando o azul intenso daqueles olhos. Como viver dali em diante sem o esplendor daquela cor? Você também até que

    é bem legal consegui sussurrar.

    - Ah, Sara. Os braços de Josh me apertaram ainda mais forte e senti nas costas o afago de suas mãos vigorosas.

    Quase desejei que nossa última noite não tivesse sido tão maravilhosa. Josh e eu tínhamos escapulido de nossas cabanas, como de hábito, e remando pelo lago Vermilion até nossa ilha favorita. Ele me surpreendeu com um piquenique noturno feito de morangos e cidra espumante (até hoje não sei onde arrumou o falso champanhe). Trocamos morangos e beijos e fizemos dezenas de pedidos às estrelas cadentes que riscavam o céu de veludo. Clichê meio batido? Sem dúvida. Romântico? Decididamente.

    Josh e eu tínhamos passado a noite quase toda em claro, conversando e rindo, entre beijos e cochichos. Ao pegarmos o barco para voltar ao acampamento Quisiana, o sol já ia subindo por entre os pinheiros. Nunca lamentei tanto o despontar de um novo dia.

    No entanto, era preciso encarar o fato de que Josh estava a poucos minutos de tomar aquele horrendo ônibus amarelo. Um pouco antes, ele, eu e todos os conselheiros juniores tínhamos nos reunido na cantina e feito um café da manhã superespecial para a turma: panquecas, waffles, bacon e lingüiça. Chegamos,

    inclusive, a levar todas as mesas para fora, para que a criançada comesse ao sol. A manhã toda, fingi que se tratava apenas de mais uma refeição. Mas não podia continuar naquele meu mundo de fantasia. Acabara. Tinha chegado a hora do adeus... pelo menos por enquanto.

    - Josh. Escondi meu rosto em seu peito, sem dar a mínima atenção para as fartas evidencias de que Gunnie, a diretora do acampamento, me fuzilava com os olhos de seu posto na cabeceira da mesa. Há momentos que pedem moderação e momentos que exigem abraços em publico. Aquela manhã, a última que Josh e eu passaríamos juntos por um bom tempo, sem sombra de dúvida encaixava-se nesse último caso.

    - Estou falando sério Josh murmurou entre meus cabelos. Você é uma em um

    milhão. Dois milhões. Um bilhão.

    Balancei minha cabeça em silencio, louca para ouvir aquelas três palavrinhas mágicas.

    - Você também, Josh. Eu... te amo. Ai, meu Deus. Será que aquelas três palavras

    tinham escapado de minha boca? Eu te amo. Era verdade. Uma revisão mental

    imediata confirmou a indiscrição.

    Josh suspendeu meu queixo, forçando-me a olhá-lo de frente.

    - Eu também murmurou.

    Tudo bem. Josh não tinha exatamente pronunciado com todas as letras o famoso ―eu-te-amo‖. Mas eu já lera uma boa quantidade daquelas revistas que dizem ―como-arrumar-namorado-em-uma-semana‖ para saber que os meninos não são

    lá muito craques na hora de declarar amor como Romeu e Julieta. Não precisava

    ouvir palavras exatas. O simples fato de saber que Josh sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele encheu minha alma com um calor arrebatado.

- E a gente vai se ver em breve acrescentei. Talvez eu consiga passar o Dia

    de Ação de Graças com o meu pai. Ele tinha se mudado havia pouco para uma

    cidade muito pequena na Flórida, e Josh havia me garantido que não ficava muito

longe da costa, onde ele freqüentava o colégio.

    Atrás de mim, escutei o estrondo da buzina de um ônibus. Meu estomago foi parar nos pés, assim que olhei para trás. O primeiro deles estava pronto para partir: campistas e conselheiros iriam embora em diferentes levas, dependendo da hora dos respectivos vôos. Eu só iria no fim da tarde, quando minha mãe chegasse para me levar de volta a Portland. O motorista do ônibus botou a cabeça para fora. Parecia mal-humorado e tremendamente impaciente.

    - Vamos lá, meus pombinhos! o sujeito berrou. O tempo não pára só porque

    vocês dois ainda não estão prontos para partir!

    - Já estou indo! Josh gritou de volta, virando-se outra vez para mim. Parece

    que estamos com uma platéia e tanto.

    Olhei em volta. Josh tinha razão. Dezenas de pares de olhos nos fitavam em seus assentos do ônibus, e um número ainda maior de campistas acompanhava nossa despedida nas mesas do café da manhã. Senti o rosto pegar fogo. - Preciso ir andando Josh disse.

    Concordei em silêncio, enquanto ele dava o passo que o poria dentro do ônibus. Com um golpe de sorte me lembrei e gritei:

    - Espere um pouco! Josh! Espere!

    Ele se virou:

    - O que foi?

    -Os endereços! Números de telefone! Lidar com o lado prático da vida nunca foi

    meu forte. Nós não temos como entrar em contato um com o outro!

    Josh largou a mochila e estapeou a testa com a palma da mão:

    - Como fomos esquecer de uma coisa dessas? perguntou. Depois sacudiu a

    cabeça. Tudo bem, eu sei como.

    Não havia necessidade de elaborara em torno dessa afirmação. Dezenas de ocasiões me vi à beira de lhe pedir os dados básicos. Mas, de uma forma ou de outra, minhas solicitações de endereço e telefone acabavam sempre perdidas num novo beijo ardente.

    Puxando um recibo todo amassado e um marcador de feltro da mochila, Josh disse: - Certo, me dê seu endereço.

    - 160 Little Hill Road comecei. Portland, Ma...

    - Vamos partir , Nelson um dos conselheiros gritou do ônibus. E é mesmo!

    - Rápido Josh falou. Me dá o resto.

    - Portland, Maine, 04101 encerrei mais que depressa. E meu telefone é 207-

    555-6251.

    Josh pôs a tampa no marcador e enfiou o recibo no bolso de trás de sua Levi’s desbotada:

    - Vou sentir a sua falta.

    - Também vou sentir a sua respondi, com um bolo imenso na garganta.

    Josh inclinou-se, roçou os lábios de leve nos meus e me deu um último aperto caloroso de mão:

    - A gente se vê em breve. Tenho certeza.

    Depois, virando-se, saltou para dentro do ônibus, onde o motorista nos vigiava de cara feia por trás do vidro do pára-brisa enorme e um tanto sujo. Vi quando os

    ombros, perfeitamente esculpidos, de Josh desapareceram dentro do veiculo, depois espichei o pescoço para vê-lo avançar com agilidade pelo corredor estreito. O motorista buzinou duas vezes. E eles se foram.

    Só depois de o ônibus já ter sumido na longa estrada de terra me dei conta de que não tinha pegado nem o endereço nem o telefone de Josh. Tudo o que sabia é que ele morava na Flórida, em uma cidade Mason’s Cove. Ou seria Mecca Beach? Não, espere. O nome da cidade era Cove’s Corner. Ou não. Aah!

    Suspirei fundo, depois dei de ombros. Josh me ligaria à noite, direto do estado ensolarado esse é o apelido da Flórida. Ou no máximo no dia seguinte. Anotaria todos os dados dele em um lugar seguro e aí escreveria as cartas mais compridas, engraçadas e românticas do mundo. Depois disso, seria apenas uma questão de tempo até fazermos planos concretos para nos vermos de novo.

12 de agosto

    Querido Josh,

    Oi! Estou com tanta saudade. Pronto, essa afirmação de suma importância já foi feita. Agora posso continuar esta carta com... o quê? Não sei ao certo o que quero lhe dizer. Mal posso esperar para receber sua primeira carta. Estou tão ansiosa para falar com você que resolvi me adiantar e começar a lhe escrever sempre que me der vontade. Aí, depois, junto tudo e envio assim que tiver seu endereço. O verão foi tão incrível. Antes de conhecer você, nunca pensei que pudesse levar alguém a serio. Em geral, namoro um mês e depois fico torcendo para que o carinha suma. Mas com você... não sei. É como se fosse impossível descobrir tudo o que há para ser dito. Poderia conversar com você horas a fio sem me entediar nem por um segundo. Incrível, não é?

    Certo, estou ficando meio açucarada, de modo que vou terminar por aqui. Talvez nem chegue a mandar. Tudo o que eu sei é que estou morrendo de vontade de falar com você. Será que anotou certo o número do meu telefone?

    Com amor,

    Sara

    P.S. O Maine não é o mesmo sem você.

Um

- Mãe, este vai ser o meu último ano no colegial! Minha reclamação tinha um

    bom motivo. Você não pode estar falando sério. Como você me pede para mudar de escola uma semana antes do começo das aulas?

    - Recebi uma oferta irrecusável. É a grande oportunidade da minha vida. Mamãe

    deu um suspiro suave e inclinou-se na poltrona para me dar um tapinha maternal no joelho. Desculpe ser assim tão em cima da hora, mas até dois dias atrás a universidade não sabia se teria ou não dinheiro suficiente para me oferecer a bolsa de estudo.

    Eu estava deitada no sofá verde desbotado que toma uma parede de nossa sala de estar, fazendo beicinho há horas. À medida que os dias iam passando, sem que houvesse uma única carta de Josh, meu pânico foi aumentando. Tudo bem que o acampamento tinha terminado uma semana e meia antes. Ainda era cedo, mas eu achava que ele me escreveria assim que chegasse em casa. O problema devia ser do correio, muito provavelmente, ou então a carta de Josh tinha se perdido em algum canto. Mesmo assim, essa espera era pura tortura. Sem contar que ele ainda não tinha me ligado, o que só podia significar que, na pressa da despedida, não havia anotado direito o número do telefone. E, como o sobrenome de minha mãe era diferente do meu, não havia como me encontrar usando a lista telefônica.

    Na verdade, eu tinha absoluta certeza que, naquele exato instante, Josh estava ligando para Gunnie implorando a ela o número do meu telefone. Eu já havia

    ligado para a diretora do acampamento (só que não tinha conseguido encontrá-la). Como não houve jeito de lembrar o nome da cidade de Josh, não consegui descobrir o número de telefone pelo serviço de informação. (Nota para mim mesma: prestar atenção da próxima vez em que o amor de sua vida disser o nome da cidade onde mora).

    Tinha passado por um momento de puro êxtase quando encontrei o e-mail de Josh na internet, mas, depois de lhe enviar várias mensagens sem obter resposta, percebi que devia estar falando com o Josh Nelson errado. Vai ter azar assim lá longe.

    Entretanto, pouco mais de dez minutos antes percebi que uma caixa de correio vazia não era meu único problema. Havia um outro motivo totalmente válido para a sessão especial de desânimo.

    Japão. Minha mãe iria se mudar para o Japão. E eu, pobre de mim, teria de abrir mão de toda uma vida, inclusive das milhares de atividades planejadas para esse importantíssimo último ano de colégio, e começar tudo de novo em algum outro lugar. Sem falar que ficaria ainda mais distante do meu único amor. Atirei um braço sobre os olhos e suspirei tão alto que minha labrador castanha, chamada Georgie, atravessou correndo as tabuas do assoalho e mergulhou a cabeça em meu estômago.

    - Tudo bem, pode arruinar minha vida disse para mamãe, com minha melhor voz

    de mártir. Nada de muito importante. É apenas uma vida entre bilhões. - Sara... Mamãe parecia cansada. Eu sabia que aquele era o tom reservado para me sentir a pior filha do mundo. Como de hábito, deu certo. Eu estava um trapo.

    É verdade que ela tinha passado séculos se preparando para aquele momento. Durante os três anos anteriores, batalhara feito uma louca, praticamente tinha se mudado para a biblioteca pública de Portland a fim de pesquisar a história do Japão para sua tese de doutorado. Mas, como eu já tinha ouvido mais vezes do que seria possível enumerar, uma pesquisa desse tipo só vai até certo ponto quando se está no Maine. Mamãe precisava ter acesso a obras bem mais detalhadas se quisesse terminar a tese apelidada de ―O Monstro‖.

    De repente, a Universidade do Maine lhe oferecera uma bolsa para ir estudar na Universidade de Tóquio por um ano, com tudo pago. Entretanto, havia um pequeno probleminha, que era a minha própria vida. Eu também tinha planos.

    Todos muito importantes. E nenhum envolvia uma mudança para Tóquio. - Eu sei, eu sei. Você deu um duro danado para chegar até aqui. Todo o sacrifício, todo o tempo, todas as dores de cabeça estão prestes a ser recompensados. E você simplesmente não pode deixar passar essa oportunidade.

    - Exato. Mamãe parecia mais contentinha. E estimulada. Este ano vai ser a

    realização de um grande sonho meu.

    A realização de um grande sonho seu, pensei com meus botões. Enquanto isso,

    meu destino estava em vias de ser mudado para sempre. Meu formidável último ano no colégio Thomas Jefferson e toda e qualquer esperança de dar continuidade ao meu relacionamento com Josh tinham acabado de sair voando pela janela, com destino ao Japão.

    Não me falem da mãe (perdão pelo mau trocadilho) de todos os péssimos dias. Pela manhã, eu tinha tido a infeliz idéia de me oferecer como modelo no Ambience, tudo para conseguir um corte e um xampu de graça com a Sandy, e saíra com o pior corte de cabelo de toda a minha vida (o que não significa pouco, tendo em vista experiências anteriores). E, claro, também não havia esquecido de que aquele era o décimo dia sem notícias de Josh. Vamos pôr um ponto final nos gloriosos e arrefecidos dias de verão. A vida é um enorme buraco negro. E, para completar, minha mãe exibia aquela expressão de "eu-sei-que-é-duro-ser-criança-mas-fazer-o-quê".

    - Fico na casa dos Golds - falei de repente. - Posso dormir no chão do quarto da Maggie. - O que não seria tão mau assim. Uma festinha noturna de nove meses de duração ao lado de minha melhor amiga tinha grande potencial para ser divertida. Nem pensar em me mudar para o Japão bem naquele momento. Nem pensar.

    - De jeito nenhum. O tom materno foi decisivo. Você e a Maggie juntas dia e

    noite só dariam confusão. Com C maiúsculo.

    - Ah, qual é, mãe! Isso são águas passadas. Pelo visto, Maggie e eu jamais

    conseguiríamos apagar da memória o dia em que decidimos pintar um gigantesco símbolo da paz no campo de futebol. Com creme de barbear. Ou a noite em que tomamos emprestado (e aqui eu enfatizo a palavra emprestado) o carro do pai

    dela para darmos um pulo a Nova York e assistir ao concerto do Hole. Mamãe abanou a cabeça:

    - Já falei com seu pai. Você vai passar o ano na Flórida. E, depois de uma pausa,

    concluiu: - E assunto encerrado.

    - Flórida! eu guinchei. Flórida! Flórida, Flórida, Flórida. Josh. Flórida. Minha

    cabeça parecia querer explodir a qualquer momento, enquanto o mundo rodava

sem parar dentro dela.

    Verdade que a Flórida ficava a milhões de quilômetros de minha casa, dos meus amigos e da escola. Mas era onde Josh Nelson Morava. As possibilidades desfilavam pelo meu cérebro como se estivesse vendo um daqueles filmes magníficos de Danielle Steel na televisão. Sorri. O dia melhorava em ritmo acelerado. A meu lado, Georgie latiu. Desconfio que pressentiu minha súbita mudança de humor.

    - Para onde você achou que eu ia mandar você? Para o Ártico?

    - Claro que não. Meu coração batia tão rápido que eu parecia estar no meio de uma maratona. Mamãe não fazia idéia de que me entregara de bandeja o presente mais fantástico de toda a minha vida. Claro que não iria abrir a boca. Os pais são especialistas em estourar bolhas coloridas de sabão. Sobretudo bolhas de um metro e oitenta e sete, loiras, de olhos azuis e do sexo masculino. Só não

    imaginei que você me mandaria para a Flórida... só isso.

    - Seu pai parece ter finalmente criado algumas raízes. Acho que, para vocês dois, vai ser maravilhoso passar um tempo na companhia um do outro. Os cabelos

    castanhos de mamãe balançaram de lá para cá, na altura do ombro. Ela olhou o infinito com aquela expressão tristonha que sempre lhe encobria o rosto quando vinha à baila o assunto de meu bem-intencionado, mas excêntrico, pai.

    A maioria das pessoas imagina que os pais sejam homens grisalhos que chegam em casa às cinco e meia da tarde trazendo em uma das mãos uma pasta e, na outra, flores para a mulher. Certo, admito que talvez todos os pais não sejam

    assim na vida real. Mas de um pai espera-se ao menos que viva em um só lugar, tenha um emprego e que, de vez em quando, leve os filhos para passear no fim de semana.

    Mas meu querido pai é um escultor que, até muito recentemente, acreditava que um carro velho caindo aos pedaços era mais que suficiente para indicar o endereço permanente de qualquer criatura. Em geral, ele passava por Portland umas três ou quatro vezes ao ano e estacionava seu carro na rua de casa. Ficava umas duas semanas, se tanto, dava algumas aulas de arte, vendia algumas cerâmicas, depois botava o pé na estrada de novo. Papai já morou em quase todos os estados do país, mas, pelo visto, durante o verão resolveu fixar-se na Flórida. Algo que, para ele, foi, sem dúvida, um passo e tanto. - Talvez você tenha razão disse. Depois que completei dez anos, nós nunca

    mais nos relacionamos de fato. Sabia que o relacionamento entre pai e filha era uma questão importante para minha mãe. E posso aproveitar para ver se esse

    negócio de sossegar o facho e criar raízes é sério mesmo.

    Mamãe abriu um sorriso.

    - Então estamos combinadas. Nós duas começaremos vida nova dentro de exatamente uma semana. E, de repente, uma sombra enevoou-lhe as feições.

    Só tem um probleminha.

    Ah-oh.

    - E qual é? perguntei quase sem respirar.

    - Vou sentir uma saudade doida de você. mamãe estendeu os braços.

    - Também vou sentir saudade de você falei, desabando em cima dela. E iria.

    Mas sentir saudade de mamãe me parecia relativamente distante, diante da possibilidade de voltar a encontrar meu grande amor. No momento, eu só estava preocupada em ir para a Flórida e descobrir o paradeiro de Josh. Uma semana. Agüente firme, Josh. É só uma semana. Eu encontro você, e aí poderemos ficar juntos para sempre.

    ***

    -Não acredito que você vai embora. Eu não acredito. Maggie já tinha repetido

    essas mesmas duas frases aproximadamente umas mil e quinhentas vezes desde que soubera da noticia. Mas quando o dia da mudança se aproximou, a voz começou a ficar mais chorosa. Os luminosos olhos verdes mostravam-se tristonhos, e até mesmo o cabelo ruivo encaracolado parecia meio borocoxô. Enfiei uma nova peruca na cabeça. Essa era longa, castanha e sem franja. Depois de ter feito o pior corte de cabelo de toda a minha vida, havia ficado obcecada com a idéia de comprar uma peruca. Tínhamos passado, Maggie e eu, os últimos quarenta e cinco minutos dentro da loja Sunny Wigs, e eu já tinha experimentado mais de uma dúzia de estilos diferentes.

    - Maggie, nós já conversamos sobre esse assunto. Não queria admitir, mas

    estava prestes a ter eu mesma uma gravíssima crise de choro.

    Maggie arrancou a peruca castanha de minha cabeça e substituiu por outra também até os ombros, em tons de acaju, mais para o estilo de ―mulheres-de-

    trinta-anos-bem-sucedidas‖.

    -Não acredito que você vai embora repetiu mais uma vez.

    Não gosto de despedidas emotivas. Não chorei nem no dia em que Josh foi embora. Pelo menos, não na frente dele. Depois que entrei em casa, porém, fui direto pra cama, puxei as cobertas e despejei mais ou menos um balde de lágrimas. Em seguida, enxuguei os olhos e fui comemorar a despedida com os amigos.

    - Você tem montes de amigas ressaltei, arrancando a falsa cabeleira. Além do

    mais, comigo fora da jogada, você já está praticamente eleita a rainha do baile de boas-vindas. Tirei uma peruca loira encaracolada do balcão e enterrei na cabeça de Maggie.

    - Nossa, obrigada pelo voto de confiança Maggie respondeu com secura.

    - Ora, ora, é para isso que eu estou aqui retruquei sem me dar por vencida.

    - Corrigindo, era para isso que você estava aqui. Maggie me entregou uma

    peruca em tons escuros de loiro. Gostei do estilo: na altura dos ombros com uma franja curta de Cleópatra.

    Minha amiga não jogou limpo.

    - Mags, você está cansada de saber que vou estar a um telefonema de distância. E a um pulo de avião.

    Ela meneou lentamente a cabeça, depois sorriu.

    - Bom, pelo menos eu vou conseguir um bronzeado fantástico, quando for visitá-la. Durante nossa longa amizade, e a poder de muita doutrinação, eu acabara convencendo Maggie dos benefícios de pensar positivo. Como eu, ela nunca ficava muito tempo no fundo do poço.

    Olhei-me no espelho, semi-satisfeita com o reflexo. Poderia viver com aquele cabelo, até que minhas próprias melenas loiras recuperassem a antiga glória e o comprimento de antes. De repente, porém, senti-me vivamente consciente de que,

    se por algum terrível acaso, eu voltasse a errar o corte de cabelo, Maggie não estaria do meu lado lá na Flórida para segurar minha mão (ou meus cabelos). Foi uma lembrança horrível. Continue pensando positivo, ordenei a mim mesma.

    -Será que o Josh vai gostar de mim nesta peruca? perguntei, louca para levar a

    conversa para outros rumos que não a iminente despedida de duas grandes amigas.

    Maggie sacudiu a cabeça.

    - Você não vai mais estar usando peruca, até chegar lá, Sara. Dei de ombros.

    - Nunca se sabe. Pode ser que eu decida que é melhor ter cabelo falso do que verdadeiro. Calei-me por um instante, de cenho franzido para a imagem refletida no espelho. Quer dizer, olhe só para mim. Eu pareço uma vassoura usada.

    Maggie girou os olhos.

    - Certo. Sei reconhecer uma pessoa tomada pela ansiedade.

    - E posso saber o que significa isso? perguntei, largando um pouco do espelho.

    - Você está preocupada com o Josh e você, não é verdade? E Maggie bateu o

    pé no chão, à espera de uma resposta.

    Não disse nada. Não sou muito chegada em conversinhas femininas adocicadas. E odeio admitir que não tenho confiança em mim mesma. Simplesmente não é meu estilo.

    - Vai, confessa mocinha Maggie continuou. Eu conheço você. Sei que está

    preocupada porque ainda não recebeu nenhuma carta dele.

    Não era uma pergunta. Era uma afirmação.

    - Estou admiti.

    Não havia necessidade de elaborar o assunto. Afinal, tinha passado cada segundo dos últimos dias obcecada com a caixa vazia do correio e com o silêncio do telefone. E tinha dado a mim mesma um milhão de motivos para explicar por que ele ainda não tinha me escrito. A hipótese mais plausível era a de que Josh teria perdido meu número de telefone e endereço em algum lugar no trajeto do Maine até a Flórida. Todos nós abemos que pedacinhos de papel têm um jeito todo especial de desaparecer no espaço.

    Maggie fez um gesto com a mão, como se quisesse apagar minhas preocupações. - Você sabe que ele quer falar com você. Mas deve estar passando por alguma dificuldade técnica.

    - Eu sei. Mas agora ele não vai poder mais me achar! Mesmo que tenha encontrado meu endereço e tenha me escrito uma carta, nunca mais eu vou receber! Eu terei ido embora!

    - Já não prometi que vou conferir sua caixa de correio todos os dias, depois que você for para a Flórida? Maggie me lemnbrou.. Além do mais, se o destino de

    vocês for o reencontro, haverá um reencontro. Vocês vão se ver de novo, sossegue.

    Tirei a peruca da cabeça com desânimo.

    - Já não tenho mais tanta certeza disso. Quer dizer, só porque vamos estar no mesmo estado, não significa que será mais fácil encontrá-lo.

    - Mas assim que você falar com a diretora do acampamento, saberá onde ele mora. Maggie ressaltou. Além do mais, eu te conheço, Sara Connelly. Você sempre consegue o que quer. E vai descobrir o paradeiro de Josh, haja o que

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