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CPAEnsaioDeUmBeijoby_digitaliz

By Steven Phillips,2014-09-14 05:02
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CPAEnsaioDeUmBeijoby_digitaliz

    [Primeiro amor] Ensaio de um beijo

    Coleção Primeiro amor.

Autora: Elizabeth Bernard

    Traduzido por: Fabio Fernandez

Prólogo

    UMA PAIXÃO NO PALCO

    Aos quinze anos, Naomi Peters é a aluna mais aplicada da escola e todos estão certos de que uma brilhante carreira de advogada a aguarda. Todos, menos ela, pois secretamente Naomi tem um sonho. Ou melhor, dois: deseja tornar-se uma atriz e quer vicer uma história de amor, igualzinha aos romances que adora ler.

    Disposta a desfazer a fama de garota comportada e tímida ela se candidata ao principal papel feminino da peça A Bela e a Fera, que o grupo de teatro de sua escola se prepara para encenar. E, para surpresa geral, é a escolhida.

    O teatro faz vir à tona um lado da personalidade de Naomi que ela jamais imaginara que existisse. Tudo lhe parece novo, a vida se torna cada vez mais excitante... principalmente quando descobre que o misterioso e rebelde Dylan Russo foi o escolhido para o papel de Fera. Diferente de todos os garotos que Naomi já conehceu, ele a fascina desde o início. Quando Dylan a beija durante o ensaio de uam cena, desperta-lhe as mais loucas emoções...

    Mas será que a paixão entre eles é verdadeira ou fruto apenas da linda história de amor que representam no palco?

Prefácio

    DESCOBERTA DE UMA PAIXÃO

    Naomi Peters quer mudar de vida. Disposta a desfazer a fama de garota tímida, inscreve-se no teste para a seleção do principal papel feminino da peçaA Bela e a Fera, que sua escola pretende montar. Para sua surpresa, é a escolhida. As expectativas aumentam aidna mais quando o misterioso Dylan Russo é indicado para o papel de "Fera". Desde o primeiro ensaio, atração por ele é incontrolável. Mas será que é correspondida? As emoções que vivem ao representar as cenas de amor são verdadeiras ou Dylan é apenas um ótimo ator?

    Capitulo 1 - SONHANDO EM SER ESTRELA

    Meu nome é Naomi Peters, e só de olhar para mim vocês jamais diriam que eu sou uma garota que guarda um segredo. Ou dois segredos.

    Nada de segredos obscuros ou assustadores. Meu pai não é um agente secreto, e nossa família minha irmãzinha Karen, minha mãe e nossa gata Pebbles com certeza não está se

    escondendo de um cartel de traficantes de drogas do subúrbio de Boston em que moramos. Não, nada disso. Eu sou só uma garota comum de 15 anos. Mas há algumas coisinhas a meu respeito que ninguém jamais adivinharia.

    Por exemplo: apesar de já ser uma aluna do segundo colegial do Paul Revere Righ, minha escola, eu ainda devoro livros que falam de amor como se fossem bombas de chocolate.

    A maioria de minhas amigas gosta de histórias de amor. Mas, sempre que começam a viver a sua própria, elas geralmente param de ler. Eu não. Tenho saído com Josh há meses e continuo vidrada em histórias de amor.

Vocês sabem o tipo de histórias de que estou falando aquelas em que um simples beijo

    coloca você em órbita, em que o herói sabe a heroína é o seu destino e está disposto a ir até o fim do mundo se for preciso para conquistar o amor dela. Isso é o que eu chamo de ―romantismo‖. Já na vida real, com josh, eu continuo esperando o tal romantismo aparecer...

    Talvez Josh Davidson não seja a matéria da qual as grandes histórias de amor são feitas.

    E talvez eu também não seja. Mas naquele frio dia de novembro em que a lista dos papéis de nossa produção escolar do clássico A Bela e a Fera foi divulgada, eu comecei a duvidar. Eu estava tão entusiasmada! Vesti minhas roupas novas para ir à escola naquele dia, incluindo as botas de caubói que eu tinha economizado todo o verão para comprar e a longa saia de brim que fazia meus olhos desbotados ficarem decididamente azuis. Apesar de ser uma manhã cinzenta e chuvosa e a maioria dos garotos e garotas estar se sentindo melancólica e desanimada por causa da terceira derrota consecutiva do time de futebol do Revere High, eu me sentia de altíssimo astral enquanto caminhava apressada em direção ao anfiteatro da escola. Quase uma felizarda... Como se alguma coisa de muito especial estivesse prestes a me acontecer.

    Minha vida estava a ponto de mudar completamente. Tinha certeza disso. Eu, a tímida e doce Naomi, de quem todo mundo gostava, mas definia como uma ce-dê-efe obcecada em chegar o mais rápido possível à Faculdade de Direito de Harvard, tinha cometido um verdadeiro ato de transgressão! Sem conversar com meus pais ou ter duzentas discussões intermináveis com minha melhor amiga, Amanda Zukowsky, e sem sequer mencionar meu plano a Josh, eu tinha matado as sessões de estudos na biblioteca e usado aquele tempo para batalhar um papel na peça de teatro da escola nada menos do que o papel principal.

Isso realmente era algo que as pessoas jamais me imaginariam capaz de fazer. Todo mundo

    meus pais, meus melhores amigos já havia decidido que eu seria advogada, mas

    secretamente eu sempre quis ser uma atriz. E A Bela e a Fera poderia ser o meu começo.

- Boca fechada, pessoal!

    Era a voz de Dave Martin, presidente do Máscaras, o clube de teatro do Revere High. Ele parou em frente ao mural do anfiteatro . Portas de escaninhos se abriam e fechavam com estrondo. Todo mundo parecia atrasado para a aula, e todos os que haviam participado dos testes para a peça queriam ser os primeiros a ler a lista dos selecionados. A barulheira era fenomenal, mesmo para os padrões de nossa enorme e populosa escola.

- Dá um tempo, moçada! Assim não dá nem pra pendurar a lista!

A multidão obedeceu, dando espaço ao atarracado do David.

- De onde saiu toda essa gente? perguntou espantada minha amiga Amanda.

    Quando na noite anterior havia lhe contado sobre minha participação nos testes, ela pensou que eu tinha pirado, mas admitiu ter sido um bocado corajosa para subir no palco na frente de todo aquele povo. Achou também que eu não tinha a mínima chance de ser aprovada. ―Segundanistas não ganham papéis principais‖, lembrou-me ela. E muito menos segundanistas

    inexperientes e mais altas do que qualquer garoto do clube de teatro. Mesmo assim, tanto ela quanto Max Munoz e Josh chegaram mais cedo naquele dia só para poder estar comigo na hora que saísse o resultado dos papéis e me dar um apoio moral.

    Eu precisava daquilo. Não sei o que deu em mim para ter peito de tentar o papel. Só sei que, lado a lado com o desejo de viver um grande romance, anseio pelo estrelato mais do que por qualquer outra coisa. Esse é o maior dos meus segredos. Desde os 5 anos, quando representei um anjinho no espetáculo escolar do domingo de Natal, sonho com Hollywood, ou com a Broadway, ou com a TV. Só que até agora fora tímida demais para tentar.

    Aquela minha primeira e única experiência no palco não tinha sido nada animadora. Minhas asas haviam ficado presas no cortinado e eu desabara de uma plataforma, arrastando metade do cenário junto. O público em peso caíra na gargalhada, e com isso nascera meu medo do palco. Meus sonhos de estrelato não incluíam, de jeito nenhum, papéis cômicos. Para mim, eram papes românticos ou anda.

    A campainha de chamada para a aula tocou, e a pequena multidão de aspirantes a uma papel na peça avançou como uma manada em direção ao mural. Apesar da esperança, eu já estava em parte tentando me desiludir de antemão, para depois não sofrer muito com a provável derrota. ―Idiotice. Só pensar em tentar já foi uma grande idiotice‖, murmurei para mim mesma. ―Não sei nem por que estou perdendo tempo em conferir a lista‖.

    Contudo estiquei o pescoço o máximo que pude para tentar enxergar por cima da cabeça de dois caras na minha frente.

- Provavelmente, isso só vai me servir de lição, por ter sido tão pretensiosa resmunguei

    desanimada. Com certeza fracassei no teste.

-―Fracasso‖ é uma palavra que não existe no vocabulário de Naomi Peters disse Amanda

    atrás de mim, desembaraçando-se dos braços de Max. Ela e Max tinham se tornado tão grudados nos últimos dias, tão abraçadinhos e de mãozinhas dadas o tempo todo, que estavam começando a parecer um daqueles monstros mitológicos de quatro pernas, quatro braços e duas cabeças.

    As maçãs do rosto de Amanda estavam vermelhas de felicidade, combinando com o rosa-pálido da cor de sua camisa. Enquanto forçava passagem em direção ao mural, ela me pareceu exatamente como eu achava que alguém apaixonado deveria se parecer.

    Não como eu. Não como o Josh. As pessoas apaixonadas parecem estar meio fora de foco com relação ao resto do mundo, como se suas mentes só conseguissem se sintonizar com a do ser amado e vice-versa. A minha mente estava na peça.

    E a mente de Josh estava no segundo toque da campainha de chamada. Quando ela soou, ele deu a uma olhada em seu relógio e depois no que ficava acima dos escaninhos ao longo do anfiteatro. Voltou-se então para mim com um olhar expressivo. Não apaixonado. Era mais um olhar do tipo ―vamos acabar nos atrasando‖. Josh e eu estávamos namorando só havia alguns meses, mas éramos amigos desde a infância. Portanto, acreditem em mim, eu conheço bem a ―peça‖: decididamente, aquele não era um olhar apaixonado.

    Amanda se livrou de Max e saiu se espremendo por entre as pessoas na nossa frente. Ela era baixinha, e por isso mesmo já havia aprendido bem, com seus 15 anos e meio, a abrir caminho a cotoveladas no meio das multidões. Uma habilidade que eu sempre admirei nela.―Olha eu!‖ ,

    anunciava, e milagrosamente a plebe se apartava para lhe dar passagem.

     Eu fiquei vacilando um pouco atrás dela, com medo de que os outros notassem a minha presença. Mas Amanda simplesmente me puxou pela manga da minha jaqueta de camurça novinha e foi me arrastando pelo caminho.

- Agora chega desse papo de fracasso, Naomi impôs Você nunca fracassou em coisa

    nenhuma em sua vida. Caramba, você é ―fera‖ em tudo o que faz!

- Pois desta vez eu prefiro ser a Bela do que a Fera.

    Aquilo soou tão engraçado na hora que eu e Amanda torçamos um daqueles olhares únicos de ―melhores amigas desde o jardim-de-infância‖ e caímos na gargalhada.

    Max riu com a gente:

- Eu acho que a Naomi é perfeita para o papel de Bela... disse ele, ao mesmo tempo que me

    lançava um sorriso e ajeitava os óculos.

Eu me senti corar, mas agradeci o elogio. Costumavam me chamar de Olívia Palito sempre

    fui magricela -, mas felizmente eu conseguira ganhar um pouco mais de peso com relação ao ano anterior.

- Ela tem uma beleza mais do que suficiente para o papel acrescentou Mas.

- E esse deveria ser o seu papel disse Amanda, dirigindo-se a Josh.

- Papel...? Josh coçou a cabeça, com expressão confusa.

    Quando ele ficava assim, meio confuso e sem graça, eu sentia um impulso irresistível de lhe dar um forte abraço, do mesmo jeito que faria com um ursinho de pelúcia meio estropiado, mas muito querido. Josh era uma pessoa muito doce, o perfeito companheiro. Um metro e oitenta e cinco, sardento e de ombros largos, ele tinha aquele sorriso simpático e amigável que fazia a metade da população feminina da escola dar uma segunda olhada quando ele atravessava os corredores. E uma das qualidades de Josh era justamente não ter a menor idéia do quanto ele era atraente para as garotas para a maioria delas, pelo menos. Quanto a mim, acho que o conhecia havia tempo demais para sentir uma moleza nos joelhos quando ele passava por perto.

    Depois de seu treinamento semanal das segundas-feiras pela manhã com a equipe de tênis, ele estava com um aspecto meio abobalhado por causa do cansaço. Mas não se iludam. Josh era o garoto mais esperto da escola. Ele era o presidente do clube de debates e sempre se saía brilhantemente em todas as discussões e polêmicas. Josh já estava querendo fundar um outro clube dentro da escola, uma espécie de ―clube dos futuros advogados‖, que se chamaria Águia da Justiça. Era só quando se tratava de relações humanas que ele ficava meio perdido. O que chegava até a ser fofo às vezes.

- Eu... Eu... acho que não captei...

- Você é o namorado dela, bobão! disse Amanda, sem mais rodeios. E seria de esperar que

    você a achasse tão bonita que fosse uma pura questão de lógica ninguém mais no mundo além de Naomi poder ganhar o papel da Bela!

- Mas é óbvio que eu acho você bonita disse Josh, no mesmo tom em que diria ―o céu é azul‖

    ou ―eu gostaria de um pedaço de pizza no almoço‖. – Mas não é assim que essa história de

    casting funciona completou o o meu sempre pragmático namorado. Claro, seria demais

    você ganhar o papel, mas, se não der, não é nada sério. Afinal, você não estava mesmo pensando em se tornar atriz ou algo parecido. Bom, vamos indo que a gente já está meio atrasado, e eu não estou nem um pouco a fim de ter de agüentar a irritação de Mr. Dunsmore.

    Fiquei irritada, mas nem deu tempo para me preocupar com isso. Amanda já estava de nariz colado na lista, e eu bem atrás dela. Nós duas batemos o olho no meu nome exatamente ao mesmo tempo. Por um segundo as letras embaralharam, e pensei que fosse desmaiar.

- Você conseguiu! gritou ela.

- Eu consegui... sussurrei. Minha voz entalou na garganta. O sangue fugiu de meu rosto. Eu

    consegui o papel principal! Eu não acredito... falei como se estivesse sufocada, meus joelhos

    viraram geléia e desabei em cima de Amanda. Isso é bom demais para ser verdade!

    - Pois é, mas é verdade! Suas palavras saíram tão cheias de orgulho que eu me recompus e comecei a sorrir.

Ela sorriu de volta.

    - Eu sabia que você estaria à altura, mas nunca imaginei que eles fossem dar o papel a uma aluna do segundo ano. Estou muito feliz, Naomi!

    Então ela rodopiou comigo num abraço forte, enquanto Max me dava tapinhas nas costas. Josh me pegou no meio do redemoinho formado por Amanda e Max e me esmagou num enorme abraço de urso. A camisa dele me provocou uma sensação de suavidade ao roçar em minha pele, e eu me senti absolutamente, completamente feliz.

    A felicidade, eu já aprendi, é um sentimento muito fugaz. Num minuto você está tão alto quanto o monte Everest, no topo da alegria, e no seguinte já pode estar mergulhada no mais profundo oceano de desespero. Eu costumava me preocupar muito com esse fenômeno da vida. Minha mãe dizia que isso tem a ver com ter 15 anos.

- Ah, não! Amanda continuava a fuçar na lista dos selecionados. Olha só quem ficou com o

    papel masculino!

    Mas é claro, o papel principal masculino! O papel da Fera! Como eu tinha podido me esquecer da Fera? Não existe uma Bela sem a sua Fera, e nem sequer uma vez durante os testes do dia anterior tinha parado para pensar a respeito de quem poderia vir a contracenar comigo se eu ganhasse o papel. Tudo em que me concentrara fora em ser a Bela, em imaginar de que jeito ela caminharia, como pensaria, como soaria sua voz. Eu tenho tendência a ser mentalmente muito ―monodirecional‖, o tipo da pessoa que sempre se concentra numa única idéia de cada

    vez. Meus pais, meus amigos e meus professores achavam que essa é uma das minhas qualidades mais preciosas: a concentração perfeita.

- Más notícias resmungou Amanda. Uh!

    - Uh? - repeti, questionando Amanda.

    Eu não tinha gostado nada da entonação que ela dera àquele ―uh‖. Fizera-me pensar numa

    coisa comprida, nojenta, como um réptil, algo monstruoso e horripilante, como a própria Fera. Dei uma olhadela ao redor da sala, em direção aos garotos que haviam estado checando a lista e já se afastavam. Qual seria o meu parceiro? Nenhum deles me pareceu tão horrendo assim. Nenhum tinha cara de ―uh‖, ou algo semelhante.

- Quem é o parceiro dela? perguntou Max.

Josh ergueu os olhos de seu relógio.

- Parceiro? indagou inquieto.

    - A peça não é só ―A Bela‖ – lembrei-lhe.

Ele franziu as sobrancelhas.

- Parceiro, no papel de Fera expliquei, paciente.

    - Bom, eu não diria que Dylan Russo é uma fera ou um monstro emendou Amanda -, mas

    não vou com a cara dele. Pelo menos não é mais baixo do que você, Naomi. - Você o conhece? Mas pareceu ciumento.

Amanda sorriu e fez uma pausa só para dar um beijo nele.

    - Você é o único cara que eu realmente conheço, Max. Mas há alguns caras de quem {ouvi} falar...

    Dylan Russo. Minha imaginação rodopiou a mil. Amanda tinha ―ouvido falar‖ daquele sujeito. Mau sinal. Isso significava que ele tinha algum tipo de má fama. E se fosse um ordinário qualquer? ―Eu vou ter de beijá-lo!‖, pensei, me dando conta disso pela primeira vez. ―E não vou

    ter escolha!‖

- O que exatamente você sabe sobre esse Dylan? perguntou Josh, colocando uma mão

    protetora em cima de meu ombro.

    - O pai dele é Ray Russo, aquele cara que tem uma oficina do tipo ―Conserta-se tudo‖ em

    Keaton Corners informou Amanda.

    Meus ombros, minhas pernas e minha alma relaxaram com alívio. ―Uma oficina‖ soava tão normal, e Keaton Corners era um lugar também normal...

- Ah, é aquele cara que tem uma Harley... Josh franziu a testa. Eu não o conheço, mas o vi

    zanzando na oficina quando levei o limpador de neve de meu pai para consertar lá, na semana passada.

- Um motoqueiro? Numa peça de teatro? No papel principal masculino? Eu tentava com

    dificuldade visualizar aquilo.

- Estranho, não? observou Amanda.

- E por que a gente nunca topou com ele? perguntou Max, enlaçando sua mão na de

    Amanda.

    Agora nós já caminhávamos a passo ligeiro para o fuondo do anfiteatro, em direção às nossas respectivas salas de aula.

    - Ouvi dizer que ele só se transferiu para Paul Revere High em setembro. Ele estava morando em Berkshires com a mãe e se mudou para cá para viver com o pai. Além do que, é de uma turma mais velha do que a nossa e trabalha na oficina do pai depois do horário escolar. De forma que os nossos caminhos não têm muito como se cruzar.

    - Essa é boa! Você me deixa besta! Como é que você sabe tantas coisas a respeito de alguém que nem sequer conhece? perguntou Josh.

Eu respondi por ela:

- Sai dessa, Josh. A Amanda é a antena ambulante de Paul Revere High.

    - A questão continuou Amanda, enroscando seu braço no de Max e apressando o passo ao mesmo tempo que soava o terceiro toque da campainha é que ele não é nem um pouco o

    tipo de cara que eu gostaria de beijar.

    - Puxa, fico contente de ouvir isso! Max toca brincalhão na franja do cabelo ruivo e brilhante de Amanda.

Ela afastou o rosto só o suficiente para acrescentar:

- E muito menos maquiado de monstro. Uh!

    - Pois eu não gosto nada da idéia de te ver beijando outro cara, maquiado de monstro ou não! disse Josh, pegando na minha mão.

Aquilo foi um gesto inédito. Ele nunca pegara na minha mão na escola.

- Olha só! Você até que está parecendo enciumado! brinquei sem ter certeza de como me

sentia a respeito daquele ciúme.

    A mão dele apertou a minha, e subitamente tive uma estranha sensação de aprisionamento. - Não se preocupe, Josh. Ela não vai curtir nadinha esse beijo. Não com Dylan Russo, maquiado de monstro ou não. Eu garanto! - disse Amanda, justo no momento em que ela e Max atingiram a bifurcação que conduzia para as salas de aula da ala oeste.

- Eu não teria tanta certeza contestei, um pouco irritada.

    Por alguma razão as atitudes de meus amigos estavam começando a me incomodar. Será que eu era tão entediante, tão previsível assim? Amanda não sabia tudo a meu respeito. Ela não tinha nem idéia de que eu ainda lia histórias de amor. Ou que uma parte de mim achava as Harley muito românticas. Ou que todas as minhas partes consideravam os atores a matéria da qual os sonhos são feitos.

- Eu poderia gostar provoquei, jogando minha trança por cima do ombro.

    Amanda arqueou as sobrancelhas. Max tossiu. Josh fez uma cara de cachorrinho ferido.

- Você está falando sério?

    - Ora, Josh, dê um tempo! A gente está falando de um simples numa cena de uma peça, só isso. Além do que, o mais provável é que eu só o beije uma vez, no final... Você sabe, aquele clássico beijo para transformá-lo no príncipe dos meus sonhos.

- Príncipe dos seus sonhos? Amanda soltou uma risada e deu uma cotovelada em Josh.

    Não esquenta, Josh. Isso vai ser divertido de ver. Escute, Naomi, você vai encontrar o tal Dylan Russo dentro de... ela olhou para seu relógio exatamente sete horas. Mais tarde você nos

    conta tudinho sobre esse ator-motoqueiro. Fica combinado? Depois do seu ensaio, no Jonesy?s. A gente se vê lá e dizendo isso acenou um tchau com o braço e partiu com Max num pique acelerado em direção à sala de aula.

     Josh parou para me dar um beijo rápido na bochecha outro gesto inédito - e se apressou

    rumo à aula do Sr. Dunsmore.

    Eu corri para o lado oposto, em direção à minha sala, vagamente irritada com Amanda. O que, afinal de contas, dava a ela o direito de pensar que sabia como me sentiria ou anão ao beijar um cara qualquer cara! Talvez, pela primeira vez na vida, ela estivesse redondamente enganada a meu respeito.

    Capitulo 2 - ELE NÃO É UM MONSTRO

    Sete horas mais tarde, Dylan Russo me pegou de surpresa. Vinte minutos atrasado para o ensaio, ele se precipitou pelas grandes portas de mola do Caldwell Theater, o teatro do Revere

    High;

    Todos os membros do elenco e da equipe técnica de A Bela e a Fera olharam para ele. As luzes da platéia estavam acesas. Nós estávamos no palco, formando um grande semicírculo com as cadeiras. Judi Bender, a professora de teatro e diretora da peça, tinha acabado de

    começar a falar sobre a programação dos ensaios quando Dyalan finalmente apareceu.

    E, assim como todos os que estavam sentados no grande semicírculo de cadeiras, quando

    Dylan Russo fez sua aparição eu me inclinei para a frente para vê-lo melhor.

    Ele era bonito, uma beleza felina e misteriosa, com olhos grandes e maçãs do rosto salientes.

    Teria sido perfeito para o papel de vampiro. Contudo, apesar de seus cabelos e olhos castanho-escuros, tinha um rosto claro e límpido. Na verdade, nós dois tínhamos o mesmo tipo

    de colorido de pele, olhos e cabelos.

    Um capacete de motoqueiro com uma insígnia vermelha enfiado embaixo do braço. Um brinco

    brilhando na orelha direita.

    Muitos garotos usam jaqueta de couro e brinco. Muitos garotos que eu tinha visto perambulando pela escola eram até mais bonitos. Mas alguma coisa em Dylan me fez parar e

    reparar. Como se ele estivesse dizendo: ―Ei, olhe para mim, eu estou aqui‖.

    Aquele cara tinha algum efeito sobre as pessoas. E, com certeza, algum efeito sobre mim. Ele

    não fez meu coração pular, mas decididamente provocou minha curiosidade.

    Dylan era como um livro com uma capa chamativa e com um título ao qual você simplesmente

    não consegue resistir. Eu queria saber tudo sobre ele.

    Não me perguntem por que, mas logo que bati o olho em Dylan pela primeira vez instantaneamente fiz uma rápida prece para que Amanda estivesse errada, para que Dylan não significasse ―más notícias‖. Porque a verdade é que, de alguma forma, ele fazia mesmo pensar em más notícias. Pude entender perfeitamente por que minha amiga estava preocupada quanto a eu ter de beijá-lo.

- Obrigada por ter vindo disse Judi, por cima de sua prancheta.

    - Um cara lá perto da oficina teve um problema com o carro, e eu tive de lhe dar uma carona até o trabalho.

    A voz dele era suave, mas cada palavra sua que atravessava o palco silenciava automaticamente os cochichos que se haviam iniciado entre o resto do elenco e da equipe técnica.

- O ensaio estava marcado para as três em ponto disse Judi.

    Ela estava numa das pontas do semicírculo, sentada em sua cadeira do lado contrário, de frente para o encosto. À medida que falava, pontuava seus comentários dando pancadinhas com a prancheta no dorso do espaldar da cadeira. Eu a conhecia havia apenas vinte minutos, mas já chegara à conclusão de que era uma pessoa com a qual não gostaria nem um pouco de duelar.

- Não vou admitir atrasos. Não vejo o menor charme neles.

    Achei que Judi estava sendo um pouco dura demais com o rapaz. Contudo Dylan não pareceu alterado:

    - Não pretendo fazer disso um hábito. Mas eu não podia deixar o cara perder o emprego, podia?

    Dylan Russo estava começando a me impressionar. Eu teria murchado até ficar do tamanho de uma ervilha seca se Judi ou qualquer outro professor tivesse falado comigo do jeito que ela falara com ele.

- Tudo bem o tom de Judi se suavizou. Eu admito que de vez em quando não pode fazer

    mal a um ator se comportar com um ser humano acrescentou, com uma piscadela.

    Todo mundo riu. Dylan sorriu. Ele não tinha aquele tipo de sorriso amplo e caloroso como o de Josh. Era mais um meio sorriso pendurado no canto da boca.

    Ele ainda estava sorrindo quando se dirigiu para a única cadeira vazia no semicírculo. Bem ao lado da minha.

- Oi disse, enquanto empurrava o capacete para debaixo da cadeira. Eu sou Dylan Russo.

    Você deve ser a Naomi.

Eu olhei fixo para ele, um pouco perplexa.

- Sou... respondi devagar. Como você sabe?

    Ao mesmo tempo que tirava a jaqueta de couro, inclinou a cabeça e estudou meu rosto. Dylan vestia uma camiseta cinza, com algumas letras vermelhas desbotadas que diziam: DOIS ERRES OFICINA DE CONSERTOS EM GERAL. Ele era magro, porém musculoso e parecia bem forte para o seu tamanho.

    - Você é a minha parceira ele se sentou e cutucou um buraco desfiado no joelho de seus jeans. Como você ainda não era membro do clube do teatro, andei perguntando por aí. Queria saber com quem iria trabalhar.

- Ah...

    Ele fez aquele ―saber com quem iria trabalhar‖ soar tão sensato que cheguei a me sentir meio idiota. Afinal, ele não tinha ficado o dia inteiro se atormentando sobrem quem exatamente seria Naomi Peters. Ou se gostaria dela. Ou se ela seria uma garota qualquer.

    Então pensei que eu também poderia ter me informado mais sobre ele, apesar de não conhecer muita gente nas turmas mais adiantadas para poder perguntar.

    Dave estava distribuindo cópias do texto. Ele passou uma para Dylan, e o cumprimento com um amigável tapa nas costas?

- E aí, Dylan disse.

- Fala, Dave retrucou Dylan.

    - Dylan folheou a sua cópia rapidamente e em seguida a lançou no chão à sua frente.

Ele me olhou:

    - Além disso disse -, você ainda não notou? Desde que a lista do elenco foi pendurada no mural hoje de manhã, todo mundo na escola já sabe que nós somos.

- Então é por isso que as pessoas ficaram me encarando o dia inteiro? Dessa vez eu ri. E

    eu que fiquei o tempo todo tentando descobrir se havia algo de errado com a minha aparência.

- Não, não tem nada de errado com a sua aparência.

    Ele disse aquilo com total simplicidade, sem a mínimaq intenção de flertar. Mas mesmo assim eu corei. Se ele percebeu, não deixou transparecer.

    - No meu colégio anterior, qualquer um que fosse selecionado para o elenco da peça escolar virava instantaneamente uma celebridade. Claro que a Hermam Melville High, lá no interior de Berkshires, não era nem a metade dessa escola.

- É verdade, você é novo na cidade.

- Vê, você também sabe algo a meu respeito! provocou irônico, ao mesmo tempo que

    adiantou o corpo em minha direção e me deu um pequeno empurrão com o ombro.

     Todo o seu corpo parecia irradiar calor e energia, produzindo uma sensação suavemente perturbadora.

Eu me afastei um pouco, fingindo estar ofendida, mas não estava.

    - Não sei muito, na verdade. Só sei que você é da turma mais velha, tem um moto e entrou em Paul Revere High em setembro.

    Ele estava a ponto de dizer algo mais, mas Judi deu início à aula. Pediu para uma garota que

    distribuísse as fotocópias da programação dos ensaios. A menina era baixinha, e eu já a tinha visto pela escola. Seus cabelos eram espetados e escuros, e vestia uma blusa de moletom com os dizeres: MÁSCARAS EQUIPE TÉCNICA.

- Obrigado, Marnie disse Dylan pegando uma cópia e esticando as pernas. Marnie, essa

    aqui é a Naomi.

    Ela sorriu para mim e piscou para ele. Eu me perguntei se eles estariam saindo juntos.

- Essas são as apostilas de ensaio explicou Judi em meio ao farfalhar de papéis. quero que

    comam, durmam e respirem com elas. Esqueçam o resto de suas vidas pelas próximas duas semanas.

    Uma menina sentada perto de mim, que pouco antes havia se apresentado mo Dana, sacudiu a cabeça, e seus enormes brincos balançaram. Seu jeans estava repleto de remendos coloridos. Ela me contara que mexia com figurinos, o que de alguma forma, a julgar por sua aparência, fazia sentido.

- Isso é o que mais me fascina no teatro comentou Dylan, do meu outro lado. Adoro gostar

    de uma coisa a ponte de ela poder me devorar.

    Antes de que eu tivesse uma chance de pensar naquilo, Judi olhou em nossa direção e limpou a garganta para começar a falar:

    - Vocês têm uma semana, a partir de hoje, para memorizar todas as suas falas.

Meu gemido se misturou com duas dúzias de outros.

    Com o canto dos olhos, reparei que Dylan ficara subitamente desanimado. Ele captou meu olhar e explicou:

    - Eu não sou muito rápido nos estudos. Sou péssimo para decorar qualquer coisa.

- Eu sou um prodígio nisso contei a ele. Aprendi alguns truques com uma professora do

    ginásio.

    - Você bem que poderia me ensinar alguns deles disse ele sorrindo.

- Claro...

    Fiquei cala de sopetão, pois Judi estava de novo olhando para nós. Repassei mentalmente minha agenda de estudos para as próximas duas semanas. Ia ser difícil encontrar algum tempo livre para ajudar Dylan, mas eu daria um jeito.

    - Como eu ia dizendo... Judi recomeçou a batucar com sua prancheta no encosto da cadeira -

     ...temos menos de três semanas para tornar nossa estréia viável. Parece utópico, mas é plenamente possível. É uma semana a mais do que tivemos na primavera passada para a produção de fim de ano.

- É para a gente ficar agradecida? o comentário de Marnie ressoou pelo semicírculo.

    Eu reparei que ela estava sentada perto de um cara cuja malha com com o letreiro da equipe técnica do Máscaras era igual à dela. Marnie jogara uma de suas pernas por cima dele. Eles emitiam vibrações parecidas às de Max e Amanda. Obviamente ela não estava saindo com Dylan. Sorri para ela e decidi que gostava daquela garota.

    - Para começar prosseguiu Judi -, vamos fazer uma série de exercícios de representação que irão ajudá-los a se soltar, a ―afiar suas ferramentas de trabalho‖ e ao mesmo tempo a conhecer

    uns aos outros. Vamos conviver muito e intensamente nas próximas semanas. Na maior parte do tempo, vais ser legal e divertido; mas, às vezes, o clima pode ficar tenso, até meio louco. E no fim de tudo, depois da última apresentação, quando este grupo se dissolver, vão ficar com a sensação de que perderam todos os seus melhores amigos de uma só vez.

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