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O REINO

By Geraldine Daniels,2014-08-11 18:45
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O REINO

O REINO

J. Herculano Pires, pseudônimo IRMÃO SAULO

    O REINO

    Venha a Nós o Teu Reino

    O Livro edificante é sempre um orientador e um amigo. É a voz que ensina, modifica, renova e ajuda. - EMMANUEL

    Todas as citações Bíblicas deste livro foram tiradas da tradução clássica de João Ferreira de Almeida, Edição das Sociedades Bíblicas Unidas. Algumas palavras e frases (poucas) foram adaptadas poeticamente ao contexto, quando este o exigia, sem qualquer prejuízo do seu sentido literal.

    AVISO AO LEITOR

    Aquele que se engana a si mesmo não consegue passar pela Porta do Reino. O que não joga na estrada os fardos do egoísmo não pode entrar com eles no Reino. O que pensa que o Reino está longe terá de andar muito para encontra-lo, mas o que sabe que o Reino está aqui mesmo, ao nosso lado, já o traz dentro de si. Ai porém, do que pensar que o Reino já está nele e deixar de buscá-lo!

    O Reino é uma Graça e uma Conquista. Porque a Graça não é uma prebenda como as da Terra: Temos de merecê-la para recebê-la. E como receber a Graça sem a conquista das condições exigidas para a merecermos? Vivem na ilusão os que se esquecem daquelas palavras: Busca primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça... Porque pensam que o Reino é dado a troco de palavras, de crenças, de sacramentos, de símbolos e sinais exteriores. E se enganam a si mesmos.

    Também se enganam os que pensam que o Reino é apenas subjetivo ou pertence ao Outro Mundo. O Reino foi implantado na Terra e está crescendo entre os Homens. Seu crescimento é lento como das plantações. E está sujeito às variações do meio, aos efeitos dos transtornos atmosféricos e ao crescimento das plantas daninhas. Requer, por isso, a atenção e o cuidado dos que desejam vê-lo dominando a Terra em sua plenitude. Somos nós, os Homens, que temos de trabalhar para que o Reino venha a nós.

    Este livrinho não é um manual do Reino, mas uma reflexão sobre o Reino, um estudo dos meios pelos quais podemos atingi-lo. Muita gente se engana, pensando que o Reino pode ser atingido pelos atalhos humanos. Pretendem chegar ao Reino pela política, pela Religião, pela Filosofia, pelas Ordens Ocultas e Esotéricas, pelos Ensinamentos deste ou daquele Mestre em particular.

    Todas essas coisas só podem ajudar quando queremos realmente atingir o Reino. Porque o Caminho do Reino parte do Coração de cada um e se estende aos outros e ao Mundo Exterior. O Reino é como semente: Começa na germinação oculta e solitária, dentro de cada um.

    Que estas páginas consigam esclarecer esses problemas e aumentar na Terra o número dos Trabalhadores do Reino, é o que deseja o AUTOR.

    Capítulo 1

    A PROCLAMAÇÃO

    Era uma vez um Jovem Carpinteiro que fundou um Reino. O mais belo, o mais justo e o mais fascinante de todos os Reinos. Contam os arqueólogos que o Reino de Mari, na Mesopotâmia, era diferente de todos os demais da Antiguidade. Seu Rei não usava espada, mas espalmava a mão em sinal de benção e de paz. Estranho mundo em que os homens viveram ilhados no Amor e na Bondade, em meio aos ferozes domínios que os cercavam. Mas o Reino que o Jovem Carpinteiro fundou foi muito mais belo. A Paz floria em cada coração e o amor irradiava dos olhos de todas as criaturas, desde os animais até aos homens.

    Muita gente não acredita nisto. O Reino do Jovem Carpinteiro parece-lhes um conto de fadas, uma lenda ingênua. E outros perguntam:

    -poderia um Carpinteiro fundar um Reino?

    Certo dia um desses descrentes me fez a pergunta, numa esquina, ao crepúsculo. As sombras da noite começavam a acumular-se sobre a cidade. Senti um frêmito de asas invisíveis ao meu redor, e logo um jovem de faces rosadas, cabelos loiros e olhos azuis, tão azuis como o céu ao meio dia, acercou-se de nós e respondeu por mim:

    -Como não, amigo! Um Carpinteiro, um pedreiro, um vendedor ambulante, um lixeiro, um engraxate, todos são homens. E cada homem tem o poder, que Deus lhe conferiu, de criar o que quiser. Você mesmo pode, agora mesmo, fundar o seu Reino. Ele será de paz ou de guerra, de amor ou de ódio, como você o fiser, e poderá crescer até abranger os seus domínios a Terra Inteira.

    Meu amigo descrente encarava admirado o estranho adolescente.

    E depois de ouvir em silêncio, conseguiu quebrar o encanto e perguntar:

    -mas quem é você?

    -Um mensageiro do Reino, - respondeu o rapaz. E, virando-se, desapareceu tão estranhamente que ficamos atarantados, entre a multidão. Desde esse momento aprendi que os mensageiros do reino estão por toda parte e podem aparecer em qualquer lugar e a qualquer momento.

    Meu amigo me disse:

    -é um lunático. Meteu-se entre os outros e o perdemos de vista. -pois não vá você se impressionar com esse maluquinho.

    -mas o que ele disse, - respondi, - é uma profunda verdade. Você, por exemplo, fundou o Reino da Descrença. Um árido Reino em que pensa estar livre de qualquer inquietação. Um Reinozinho estreito e seco, que mais parece uma noz envelhecida. Nunca esse Reinozinho poderá estender-se além do seu ego minúsculo e sem luz.

    ba! - fez o meu amigo, com desprezo. -Vocês, os utópicos, os platônicos, estão sempre com a boca cheia de palavreado alegórico!

    E sem mais perder tempo comigo, despediu-se e partiu.

    Fiquei pensando no Mensageiro do Reino e ainda olhei esperançado por todos os lados, a procurá-lo. Nada mais vi. Lembrava-me apenas do frêmito de

    asas invisíveis que precedera a sua chegada e um arrepio leve e doce me percorria a epiderme.

    Então me lembrei da proclamação do Reino. Pus-me a caminhar pela calçada cheia de gente, aos esbarrões de criaturas apressadas, sob as últimas luzes do crepúsculo. E derrepente a visão se desenhou bem nítida em minha mente. Era como se eu vise, se eu presenciasse, como se tudo estivesse ocorrendo naquele momento.

    O Jovem Carpinteiro voltava de suas meditações no Deserto. Chegava a Nazaré, sua cidade natal, onde Ele e o pai mantinham sua modesta oficina. Num sábado, como sempre fisera, vestiu-se com mais puro linho que possuía, na verdade uma pobre estamenha branca, mas que brilhava como linho puro e dirigiu-se à Sinagoga.

    A modesta Sinagoga de Nazaré regurgitava de Judeus ansiosos pela salvação de Israel. O Jovem Carpinteiro passou tranqüilo pela multidão e sentou-se no lugar habitual. Quando lhe permitiram falar, levantou-se, tomou nas mãos o ROLO da Torá e o abriu em Isaías. Com voz serena, leu este pequeno trecho:

    -O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a Boa Nova aos povos. Enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e a restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o Ano Aceitável ao Senhor.

    Nunca se viu proclamação mais curta. O Jovem Carpinteiro não era de muito falar. Era de pouco, mas certo. Na verdade, servira-se das palavras de Isaías para proclamar o seu Reino. Isaías falara pela sua boca, assim, a tradição de Israel se confirmava no espírito das Escrituras e no Coração da Sinagoga. Os velhos judeus de barbas pontuadas e redondas, grisalhas, negras e castanhas balançavam a cabeça e olhavam preocupados para o Jovem, que voltou a sentar-se.

    O assistente tomara de novo o Rolo da Torá para guarda-lo, mas vacilava, olhando também para o Jovem Carpinteiro. Este correu o olhar pela assembléia, como um Rei, e começou a falar:

    -Hoje se cumprem estas palavras do Profeta.

    Um grande silêncio passou no recinto. Ouvia-se o tilintar dos cincerros das cabras na campina ao longe. Uma paz desconhecida pairava no ambiente.

    O Jovem Carpinteiro continuou:

    -o Espírito do Senhor é Amor e Justiça. Ele me ungiu para trazer justiça e Amor à Terra. Enviou-me para fundar o seu Reino. Quão diferente é esse Reino dos reinos ímpios dos homens, e se fundamentam na injustiça, na ganância e no ódio, sobre a maldição da violência. O Profeta anunciou-me e aqui estou. Ouvi-me.

    Todos ouviram em profundo silêncio. Mas estas últimas palavras provocaram alguns gestos de impaciência. Alguém perguntou:

    -não é este o filho de José, o carpinteiro?

    Outro respondeu, num cicio cortante:

    -é ele mesmo. Não vês a sua túnica de miserável estamenha?

    -Mas como pode a estamenha brilhar desse jeito? - Perguntou um rapaz visivelmente fascinado.

    -São artes Pitônicas! - murmurou um velho entre dentes. - Não é o espírito do Senhor, mas o espírito de Píton que está sobre ele!

    Diante do murmúrio que crescia, o Jovem Carpinteiro perguntou:

    -quereis, por certo, aplicar-me o provérbio: médico, cura-te a ti mesmo. Pensais, acaso, que um pobre não pode trazer esperanças aos pobres?

    A murmuração interrompeu-se por um breve instante. O Jovem esperou que todos se acalmassem e prosseguiu:

    -não acreditais nas curas que fiz em Cafarnaum. Achais que estou possesso do Espírito do Mal e perguntais porque não me curo a mim mesmo. E quereis que eu repita os prodígios do Reino entre vós.

    -sim, queremos! - Gritou Lamuel, o açougueiro ritual.

    -Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem recebido entre os seus. Vós me viste crescer e pensais que tenho de ser igual aos vossos filhos. Não sois capazes de ver além das aparências, dos hábitos, dos costumes, da rotina. Mas eu venho proclamar o Reino.

    -está endemoniado! -Fora com ele! - gritou Gedeão apoplético.

    -acalmai-vos e ouvi-me! - Disse o Jovem Carpinteiro, como se nada de mais estivesse acontecendo.

    Era tão natural e tão simples a sua calma, tão pura e isenta de qualquer resquício de afetação como se Ele estivesse conversando na rua com os jovens da cidadezinha. Mas, apesar disso, havia em seu redor um halo de estranha majestade que mantinha o auditório em suspenso.

    Lembrai-vos de Elias, - disse ele - quando o céu se fechou por três anos e meio, produzindo grande fome em toda a Terra. Muitas viúvas havia em Israel, mas Elias foi enviado a Sarepta, em Sídon. Lembrai-vos também de Eliseu, que não curou os leprosos de Israel, mas Nahamã, o sírio.

    Estas palavras cortavam como o chicote de pontas de chumbo dos guardas do Templo. Ouviu-se na assembléia um rumor soturno, que cresceu como trovoada e estourou como um raio.

    -fora o impostor!

    -lancemos da penedia esse impostor!

    -não o deixemos profanar as Escrituras e a Sinagoga!

    E a multidão enfurecida avançou para o Jovem, agarrou com seus pulsos de ferro e arrastou-o para fora. A tropeções, empurrões e gritos de ódio, levaram-no ao culme do monte, este cômoro suave como um ninho em que Nazaré repousava qual um branco e pequeno ovo de pomba.

    Lá do alto descortinava-se a beleza verdejante da Galiléia, sob um céu azul e luminoso. Mas havia do lado esquerdo a perigosa escarpa de pedra, de rochas pontiagudas e eriçados espinheiros, que representava o reverso da bonita paisagem. Por ali queriam lança-lo, para que morresse espetado nos espinhos e quebrado nas pontas rochosas. O Reino estaria perdido por mais alguns milênios. Pois quando haveria de aparecer novamente em Israel outro pregoeiro do Reino?

    Mas quando tudo parecia perdido, os homens que o agarravam com as mãos de ferro viram que estavam enganados. Na verdade, haviam-se agarrado uns aos outros, e se não percebessem a tempo, certamente se teriam arrojado num magote pelo precipício a baixo. Pararam assustados a beira do abismo e suas pernas e seus braços tremiam de horror.

    -quede o Filho de José? - perguntou um deles, com voz tremula.

    -onde teria ficado? - gritou outro, já um pouco mais forte.

    -ah, se não tivesse escapado por artes PitÔnicas o liquidaríamos agora mesmo! - bravateou Gedeão, com seus punhos de asco crispados de ódio e ao mesmo tempo de medo.

    Enquanto isso, o Jovem Carpinteiro, passando tranqüilamente entre eles, descia a encosta do monte em direção a cidade. Nazaré brilhava como uma flor orvalhada, docemente aberta na colina.

    Capítulo 2

    Os Fundamentos

    Como pode um Carpinteiro Fundar um Reino? Pois o Jovem Carpinteiro de Nazaré o fundou sem a menor dificuldade. O incidente da Sinagoga não teve muita importância. O que valeu foi a proclamação do Reino, feita com tranqüila firmeza e repudiada com estúpida violência. Daquele momento em diante o Reino do Carpinteiro estava implantado na Terra. E nada mais, nenhuma violência e nenhuma manobra escusa conseguiram fazê-lo desaparecer.

    Ate hoje há grandes Exércitos mobilizados contra o Reino. As Potestades do ar, de que falou mais tarde o Apóstolo Paulo, E As Potestades Da Terra, que todos conhecemos, vêm realizando a milênios uma luta conjugada contra o Reino. Mas este permanece firme, tranqüilo como o seu Fundador. E cada vez mais se alarga, como uma flor teimosa que desabrocha lentamente, apesar das tempestades, das secas, das pragas, do sol inclemente e da inclemência maior do coração humano.

    Quais são os fundamentos desse estranho reino que ergue as suas Tôrres e os seus minaretes, as suas cúpulas e os seus pendões entre tantas forças adversas? O Jovem Carpinteiro os formulou com as palavras de Isaías na Sinagoga de Nazaré. O primeiro desses fundamentos é o espírito do Senhor. Seria necessário mais algum? Todas as demais pedras de alicerce do Reino tiram dessa Pedra a sua pureza e a sua firmeza. O Espírito do Senhor é tanta coisa que não chegamos a compreendê-lo bem. Falta-nos visão e compreensão para tanto. Mas sabemos que Ele é antes de mais nada, Amor e Justiça.

    Eis, pois, os três primeiros fundamentos do Reino: DEUS, AMOR E JUSTIÇA. É por isso que o Jovem Carpinteiro proclama em seguida que foi ungido para anunciar a Boa Nova aos pobres. Alguns ricos têm perguntado, através dos séculos: Que justiça é essa? Então nós, os ricos não merecemos a Boa Nova? Claro que merecem, como todos os demais filhos de Deus, mas para isso precisam fazer o que o Jovem Carpinteiro ensinou ao moço rico que desejava entrar no Reino: -vai, vende o que tens e dá-o aos pobres; depois vem e segue-me.

    Então esse Reino é o Reino da pobreza e da miséria? Seria um Reino de vagabundos e mendigos? Não, pois dividir a riqueza não é destruí-la, mas multiplicá-la. É abrir-lhe outras possibilidades de crescimento, não mais entre as garras do egoísmo, mas entre as mãos do altruísmo. Os ricos que não têm entrada no Reino são os que construíram o seu próprio Reino na Terra. Esses Reinozinhos egoístas, fechados em si mesmos, alimentando a vaidade, a ganância, a impiedade, a arrogância, são os mais ferozes inimigos do Reino. Por isso é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um desses Reizinhos, que a morte despojará de suas bazofias e pretensões, entrar no Reino.

    Os pobres são os injustiçados da Terra. Os ricos são os que amealharam os bens da Terra e fizeram a sua própria justiça. O reino é do Céu, mas o Jovem Carpinteiro o trouxe para a Terra, a fim de que a justiça se faça através do Amor. Como é difícil aos homens compreenderem essa dialética Divina! Há dois mil anos

    admiram a grandeza do Reino, desejam atingi-lo, mas não jogam fora o fardo terreno que os impede de chegar a Ele. O pesado fardo terreno os esmaga no chão do Planeta, como bichinhos embaixo de uma pedra.

    Eu esplicava isso ao meu amigo descrente, noutro encontro de rua, numa esquina, quando ele perguntou, com um sorriso irônico:

    -Porque Deus deixou que os homens se embichassem desse jeito? Não era mais fácil evitar isso do que ter de enviar, depois, o Jovem Carpinteiro à terra?

    Senti novamente um frêmito de asas invisíveis e logo apareceu o rapazinho loiro, de faces rosadas, com dois pedaços de céu nas pupilas. Bateu-me levemente nas costas e dirigiu-se ao meu amigo:

    -Deus quer que os seus filhos cresçam responsáveis, por isso lhes dá a liberdade. Pode haver responsabilidade no escravo ou no robô? Meu caro, a responsabilidade é uma planta melindrosa, que só nasce e cresce no clima da liberdade.

    -Então, - respondeu o amigo descrente, puxando de novo o gatilho da sua espingardinha de ironia, - porque Deus agora condena os ricos? Não foi ele quem lhes deu a liberdade de enriquecer?

    -Deus não condena ninguém, - respondeu o rapazinho loiro. Os ricos se condenaram a si mesmos.

    -como? Que história é essa?

    -Meu amigo: os homens que amealharam fortuna da Terra amealharam egoísmo, injustiça e impiedade. Os bens da Natureza pertencem a todos, e os que transformam esses bens para produzir outros não podiam esquecer o dever da fraternidade. Como pode regozijar-se na opulência o homem que vê seus irmãos morrendo de fome, doença e miséria nas sarjetas da cidade ou nos paióis do campo?

    -Mas ele pode auxiliar as obras sociais, - retrucou o meu amigo, com leve sorriso.

    -Derrubar as migalhas da mesa para os cachorrinhos e os gatos não é amor nem Justiça, - respondeu o rapazinho loiro e, na mesma hora, como se houvesse por acaso se enfiado entre os grupos de pessoas pela calçada, desapareceu.

    -quem é esse petulante? - Perguntou o amigo descrente.

    -Um mensageiro do Reino, - respondi.

    -ba! - fez ele de novo e despediu-se apressado.

    Voltei então a pensar por minha conta nos problemas do Reino. E a proporção que andava pelas ruas, tão cheias de gente de toda espécie, pobres, remediados e ricos, os Fundamentos do Reino me pareciam mais nítidos na mente.

    Vi o rico da parábola, tão diferente daquele mendigo que comia as migalhas de sua mesa, caminhando por uma estrada circulante, com o fardo de suas riquezas terrenas às costas. A estrada levava ao Reino e subia como espiral em torno da Montanha Sagrada. Dificilmente subia o pobre rico, ofegante, cada vez mais cansado, até chegar ao luminoso Portal. Esmagado sob os fardos enormes, fez um último e penoso esforço para bater a aldrava. Mas, em vez de abrir-se o portal o que se abriu foi uma estreita portinhola. Fascinado pela beleza entrevista, o pobre rico meteu-se na fresta, mas os fardos não passavam.

    Foi dura a luta. Compreendi então a imagem do camelo. Não, não se trata de cabo ou corda grossa, trata-se mesmo do camelo. O pobre camelo rico não passava naquele fundo de agulha porque os seus fardos não deixavam. Depois de muito lutar o rico sentou-se ao lado da portinhola, que continuava aberta. Uma tranqüila Oferta. Um Convite de Amor. Mas o rico se agarrava cada vez mais aos seus fardos, que ameaçavam rolar pela encosta.

    Oh, pobre rico! Suava frio, olhava de esguelha a portinhola aberta e abraçava loucamente o tesouro da perdição. As forças começaram a faltar-lhe. Um fardo escapou. ele tentou alcançá-lo, sem largar os outros e foi então que rolou para o abismo. Só quando ele já estava no fundo do precipício a portinhola do Reino fechou-se.

    O Jovem Carpinteiro ensinou certa vez:

    -Aquele que se agarrar à sua vida, perdê-la-á; Aquele que a perder por Amor de mim, a encontrará!

    O pobre rico da parábola agarrou-se ao seu tesouro de perdição, que era a sua própria vida. Compreendi então a solidez dos fundamentos do Reino: Amor e Justiça. A portinhola continuara aberta até os últimos instantes, até o derradeiro instante. Mas o pobre rico fez justiça a si mesmo com as próprias mãos. Como queria o meu amigo culpar a Deus por isso?

    Compreendi então porque o Jovem Carpinteiro viera anunciar a Boa Nova aos pobres. E porque ele costumava dizer:

    -os que têm ouvidos de ouvir, ouçam. De que adiantaria anunciar a boa nova aos ricos que só tem ouvidos moucos para as coisas do Reino? Os pobres sofrem, são injustiçados, carecem de amor. Deus sabe que eles têm ouvidos de ouvir. A Boa Nova lhes toca o coração amargurado. Mas quando a amargura é também amealhada pelos pobres, esses se tornam escravos de si mesmos e cegos para a verdadeira vida. Por isso o Jovem Carpinteiro repetiu as palavras de Isaías sobre a libertação dos cativos e a vista aos cegos.

    Deus não faz acepção de pessoas. O pobre e o rico podem entrar no Reino, o pobre e o rico podem ficar do lado de fora da portinhola. O fardo da revolta é tão pesado e ignominioso como da boa-vida. O pobre também pode amealhar a riqueza da ignomínia. Bem-aventurados os mansos e pacíficos, porque eles herdarão a Terra. O Jovem carpinteiro não promete o Céu, mas a Terra. Porque o Reino foi implantado na Terra e deve crescer sobre Ela. É o próprio Céu que baixa à Terra. Mas para que os homens se tornem dignos do Céu é necessário que os cativos sejam libertos, que os cegos tenham a vista restaurada, que os oprimidos recuperem a liberdade e que o Ano Agradável ao Senhor seja estabelecido.

    Vejo Israel nesse Ano de Amor e Justiça. Todos se reúnem para a redistribuição das terras. O Amor do Reino inunda os corações, ainda não viciados pelo amor das comodidades materiais. Os homens compreendem que são todos Irmãos e que o Senhor só ficará contente quando todos seus filhos partilharem dos bens naturais. Nenhum pretende conservar em suas mãos mais do que o necessário. A Terra em Isra??el é pouca, mas boa. Deve ser distribuída de tal maneira que não falte a ninguém o seu meio de vida. Pois não foi o Senhor quem concedeu a Israel o domínio de Canaã, essa Terra de Leite e Mel? E a concessão não foi feita para todos?

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